quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Heráclito de Éfeso: dialética e poesia


Etienne Parrocel, Portrait du Philosophe Héraclite

     Solitário membro de uma estirpe gregária, Heráclito de Éfeso (aprox. 500 a.C.) parece não ter contado com discípulos ou associados pessoais. Em uma época que consideramos ainda fundamentalmente oral, sua influência exerceu-se quase apenas por meio do poder da palavra escrita, produzindo, dentro de uma ou duas gerações, alguns convictos seguidores, os “heracliteanos”.
     Como toda prosa antes de Heródoto e toda filosofia antes de Platão, as linhas originais de Heráclito se perderam. Para acessá-las, nós dependemos inteiramente de citações, paráfrases e relatos posteriores que tenham sobrevivido ao declínio da civilização antiga. A unidade intelectual de sua composição, contudo, permanece evidente nos fragmentos que nos restam: o tema central do pensamento de Heráclito consiste em afirmar diretamente a própria confluência de opostos. Não deixamos de notar pontos de contato com o zoroastrismo, com os Upanishads, com o Tao – e, em tempos mais modernos, com as ideias de Schopenhauer, de Emerson e de Nietzsche.
     Heráclito não é apenas um filósofo, mas, também, um poeta – um poeta que escolheu falar-nos em tons crípticos, metafóricos e proféticos. Hoje, celebramos suas linhas belas e inovadoras: o pensador de Éfeso foi o primeiro a descobrir, aceitar e amar a permanência na mudança, a ordem no paradoxo, a harmonia no caos. “Deus”, Heráclito nos ensina, é “dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, saciedade e fome” – ou seja: coisas que nos podem parecer contrárias, inimigas e inconciliáveis são, na verdade, diferentes manifestações da mesma essência universal, eterna e misteriosa.
     A seguir, traduzo, do inglês (Charles H. Kahn, The Art and Thought of Heraclitus) e do meu deprimente grego, alguns de seus fragmentos que me são especialmente significativos.


     κόσµον, τὸν αὐτὸν ἁπάντων, οὔτε τις θεῶν, οὔτε ἀνθρώπων ἐποίησεν, ἀλλ' ἦν ἀεὶ καὶ ἔστιν καὶ ἔσται πῦρ ἀείζωον, ἁπτόµενον µέτρα καὶ ἀποσϐεννύµενον µέτρα. 
–
     The ordering, the same for all, no god nor man has made, but it ever was and is and will be: fire everliving, kindled in measures and in measures going out.
–
     A essência universal, que rege igualmente a tudo quanto existe, não nasceu de qualquer deus ou de qualquer homem, mas sempre foi, é e será: fogo eterno, acendendo-se e apagando-se em constante ritmo.

*

     οὐδὲ θνητῆς οὐσίας δὶς ἅφασθαι κατὰ ἕξιν· ἀλλ΄ὀξύτητι καὶ τάχει µεταϐολῆς σκίδνησι καὶ πάλιν συνάγει καὶ πρόσεισι καὶ ἄπεισι. 
 –
     One cannot step twice into the same river, nor can one grasp any mortal substance in a stable condition, but it scatters and again gathers; it forms and dissolves, and approaches and departs.
–
     Ninguém pode pisar duas vezes o mesmo rio; ninguém pode apreender a qualquer substância mortal em condições estáveis: todas as coisas se fragmentam e se recompõem, formam-se e se dissolvem, vêm e vão.

*

     ὁ ἥλιος νέος ἐφ' ἡµέρῃ ἐστίν
–
     The sun is new every day
–
     O sol é novo a cada dia

*

     τὸ φρονεῖν ἀρετὴ µεγίστη, καὶ σοφίη ἀληθέα λέγειν καὶ ποιεῖν κατὰ φύσιν ἐπαΐοντας. 
–
     Thinking well is the greatest excellence and wisdom: to act and speak what is true, perceiving things according to their nature.
–
     Pensar corretamente é a mais sábia das excelências: dizer aquilo que é verdade e agir de acordo com a verdade, compreendendo as coisas conforme a sua natureza.

*

     ἦθος ἀνθρώπῳ δαίµων
–
     Man’s character is his fate.
–
     O nosso caráter é o nosso destino.

*

     ἀνθρώποις γίνεσθαι ὁκόσα θέλουσιν οὐκ ἄµεινον. νοῦσος ὑγιείην ἐποίησεν ἡδὺ, κακὸν ἀγαθόν, λιµὸς κόρον, κάµατος ἀνάπαυσιν. 
–
     It is not better for human beings to get all they want. It is disease that makes health sweet and good, hunger satiety, weariness rest.
–
     Não convém que tenhamos tudo aquilo que queremos. É a doença que torna a doce saúde valiosa; fome, saciedade; fadiga, descanso.

*

     χρυσὸν γὰρ οἱ διζήµενοι γῆν πολλὴν ὀρύσσουσι καὶ εὑρίσκουσιν ὀλίγον. 
–
     Seekers of gold dig up much earth and find little.
–
     Aqueles que buscam ouro hão de cavar muita terra e encontrar pouco.

*

     κακοὶ µάρτυρες ἀνθρώποισιν ὀφθαλµοὶ καὶ ὦτα βαρϐάρους ψυχὰς ἐχόντων. 
–
     Eyes and ears are poor witnesses for men if they have barbarian souls.
–
     Olhos e ouvidos são precários instrumentos para homens de almas bárbaras.

*

     τίς γὰρ αὐτῶν νόος ἢ φρήν; δήµων ἀοιδοῖσι πείθονται καὶ διδασκάλῳ χρείωνται ὁµίλῳ οὐκ εἰδότες ὅτι οἱ πολλοὶ κακοί, ὀλίγοι δὲ ἀγαθοί . 
–
     What wit or understanding do they have? They believe the poets of the people and take the mob as their teacher, not knowing that the many are worthless, good men are few.
–
     Que inteligência ou sabedoria eles têm? Eles deixam-se instruir pelos cantores do populacho e tomam as massas por mestres, jamais entendendo que os muitos são descartáveis: homens valiosos são poucos.

*

     τῷ µὲν θεῷ καλά πάντα καὶ ἀγαθὰ καὶ δὶκαια, ἄνθρωποι δὲ ἅ µὲν ἄδικα ὑπειλήφασιν ἃ δὲ δίκαια. 
–
     For god all things are fair and good and just, but men have taken some things as unjust, others as just.
–
     Para deus, todas as coisas são belas, boas e justas, mas os homens tomam algumas por justas e outras, por injustas.

*

     ὁ θεὸς ἡµέρη εὐφρόνη, χειµὼν θέρος, πόλεµος εἰρήνη, κόρος λιµός, ἀλλοιοῦται δὲ ὅκωσπερ, ὁπόταν συµµιγῇ θυώµασιν ὀνοµάζεται καθ΄ ἡδονὴν ἑκάστου. 
–
     The god: day and night, winter and summer, war and peace, satiety and hunger. It alters, as when mingled with perfumes, it gets named according to the pleasure of each one.
–
     Deus: dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, saciedade e fome. Ele se altera – como alteram-se distintos odores quando os mesclamos – e recebe diferentes nomes de acordo com cada um.

*

     ὁδὸς ἄνω κάτω µία καὶ ὡυτή. 
–
     The way up and down is one and the same.
–
     O caminho para cima e o caminho para baixo são o mesmo.

*

     συνάψιες ὅλα καὶ οὐχ ὅλα, συµφερόµενον διαφερόµενον, συνᾷδον διᾷδον, καὶ ἐκ πάντων ἓν καὶ ἐξ ἑνὸς πάντα. 
–
     Graspings: wholes and not wholes, convergent divergent, consonant dissonant, from all things one and from one thing all.
–
     Fagulhas de compreensão: totalidades e fragmentos, divergente convergente, dissonante consonante – de tudo, um; de um, tudo.

No Vaticano, a famosa Escola de Atenas, de Rafael, retrata Heráclito (de túnica lilás) sentado ao pé da escada, meditando alheio aos demais. (Roma, 7/24)

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Friedrich Nietzsche: O Nascimento da Tragédia



     Friedrich Nietzsche (1844-1900), que comemoraria seu aniversário hoje, foi, antes de tudo, um revolucionário, um libertador, um poeta-filósofo capaz de venerar a vida terrena, entendendo a arte como a suprema atividade metafísica de nossa existência. Ao contrário de tantos intelectuais pretensiosos, Nietzsche nunca buscou sistematizar a realidade em torno de uma concepção fácil: seus escritos comunicam verdades profundas apenas aos irreverentes espíritos que enxergam além das dualidades, pensam além das convenções, sentem além da razão.
     Naturalmente, é na bela civilização grega que o filólogo classicista encontra uma fonte incomparável de nobreza artística, sensibilidade humana e inspiração para viver. Seu primeiro livro, The Birth of Tragedy (O Nascimento da Tragédia), propõe-se a perscrutar as origens do impressionante drama ático, que se desenvolveu a partir de um conjunto de manifestações religiosas para, no fim, declinar sob a influência da racionalidade socrático-platônica. Quanto à gênese profunda da fé entre os helênicos, Nietzsche nos oferece uma das explicações que mais me parecem elegantes: “Os deuses”, diz-nos ele, “justificam a vida dos homens porque eles próprios a vivem” – de fato, no refinado entendimento grego, as divindades, como nós, também sorriem, também choram, também se deleitam, também sofrem.
     Inspirado pela visão de mundo pessimista de Schopenhauer e pela agudíssima música de Wagner, o pensador defendeu a regeneração da cultura moderna através do redescobrimento da poesia antiga. Nietzsche compreendia, afinal, que os gregos são os que mais podem ensinar-nos a enfrentar a realidade desapaixonada, burocrática e cinzenta de nossos tempos – Nietzsche compreendia os gregos por aquilo que eles verdadeiramente foram: um povo profundamente sensível, valente e feliz.
     A seguir, traduzo (do inglês) alguns trechos que me são particularmente significativos.


   Music and tragedy? Greeks and the music of tragedy? Greeks and the pessimistic art form? The most accomplished, most beautiful, most universally envied race of mankind, those most capable of seducing us into life — they were the ones who needed tragedy? Or even more — art? What for? Is it perhaps possible to suffer from over abundance? A tempting and challenging, sharp-eyed courage that craves the terrible as one craves the enemy, the worthy enemy, against whom it can test its strength? Wishing to learn from it the meaning of ‘fear’? What is the meaning, for those Greeks of the best, strongest, most courageous age, of the tragic myth? And of the tremendous phenomenon of the Dionysiac? And of the tragedy that was born from it?
   The Greeks knew and felt the fears and horrors of existence: in order to be able to live at all they had to interpose the radiant dream-birth of the Olympians between themselves and those horrors. How else could life have been borne by a race so sensitive, so impetuous in its desires, so uniquely capable of suffering, if it had not been revealed to them, haloed in a higher glory, in their gods? The same impulse that calls art into existence, the complement and apotheosis of existence, also created the Olympian world with which the Hellenic ‘will’ held up a transfiguring mirror to itself. Thus the gods provide a justification for the life of man by living it themselves — the only satisfactory form of theodicy!
   Anyone who approaches these Olympians with a different religion in his heart, seeking elevated morals, even sanctity, ethereal spirituality, charity and mercy, will quickly be forced to turn his back upon them, discouraged and disappointed. Nothing here suggests asceticism, spirituality or duty — everything speaks of a rich and triumphant existence, in which everything is deified, whether it be good or evil. And thus the onlooker may be disquieted by this fantastic exuberance of life, wondering what magic potion these boisterous men must have drunk to enjoy life so much that, whichever way they look, Helen, ‘floating in sweet sensuality’, the ideal image of their own existence, smiles back at them.
   Singing and dancing, man expresses himself as a member of a higher community: he has forgotten how to walk and talk, and is about to fly dancing into the heavens. His gestures express enchantment. Just as the animals now speak, and the earth yields up milk and honey, he now gives voice to supernatural sounds: he feels like a god, he himself now walks about enraptured and elated as he saw the gods walk in dreams. Man is no longer an artist, he has become a work of art: the artistic power of the whole of nature reveals itself to the supreme gratification of the primal Oneness amidst the paroxysms of intoxication.

(Traduzido do alemão por Walter Kaufmann)

– 

   Música e tragédia? Gregos e a música da tragédia? Gregos e a arte pessimista? Os humanos da raça mais realizada, bela, invejada e capaz de nos inspirar a viver – eram eles os que sentiam a necessidade da tragédia? Ou, ainda mais, da arte? Por quê? Será possível sofrer de excesso? De uma coragem tentadora e intrépida que desafia o terrível tal como o guerreiro busca o inimigo, o inimigo digno, contra quem pode pôr sua força à prova? Desejando, assim, aprender o significado do medo? E qual é o significado, para os gregos pertencentes à melhor, à mais forte, à mais corajosa era, do mito trágico? E do tremendo fenômeno dionisíaco? E da tragédia que nasceu desse fenômeno?
   Os gregos conheciam e sentiam os medos, os horrores da existência: para viverem, eles tinham de interpor a radiância dos deuses olímpicos entre sua própria realidade e esses horrores. De que outra maneira poderia a vida ser tolerada por homens tão sensíveis, tão intensos em seus desejos, tão singularmente capazes de sofrer, se ela não lhes tivesse sido revelada, aureolada em uma glória maior, através de seus deuses? O mesmo impulso que chama a arte à existência, o complemento e a apoteose da existência, também criou o mundo olímpico com o qual o vigor helênico ergueu um espelho transfigurador para si mesmo. Os deuses, então, justificam a vida dos homens porque eles próprios a vivem – a única forma satisfatória de teodiceia!
   Qualquer um que se aproxime destes olímpicos com uma religião diferente no coração, buscando uma moral elevada, até mesmo santidade, espiritualidade etérea, caridade e misericórdia será rapidamente forçado a dar as costas a eles, desanimado e decepcionado. Nada aqui sugere ascetismo, espiritualidade ou dever – tudo fala de uma existência rica e triunfante, na qual todas as coisas são deificadas, boas ou más. E, assim, é possível que fiquemos inquietos com essa fantástica exuberância da vida, perguntando-nos que mágica poção esses homens turbulentos beberam para aproveitar tanto a vida, de modo que, para onde quer que olhem, Helena – “flutuando em doce sensualidade”, a imagem ideal de sua própria existência – sorri-lhes de volta.
   Cantando e dançando, o homem se expressa enquanto membro de uma comunidade superior: ele se esqueceu de como andar e falar e está prestes a voar dançando para os céus. Seus gestos expressam encantamento. Da mesma maneira que os animais agora falam e a terra produz leite e mel, o homem passa a dar voz a sons sobrenaturais: ele se sente um deus, caminhando extasiado e exultante tal como via os deuses caminharem em seus sonhos. O homem não é mais um artista – ele se tornou uma obra de arte: o poder artístico de toda a natureza se revela para a suprema gratificação da Unidade Primordial em meio aos paroxismos intoxicados.

Entardecer na Acrópole (Atenas, 10/24)

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Safo de Lesbos: alguns fragmentos


Sappho Inspired by Love, de Angelica Kauffman (1775)

Dos nove livros que Safo de Lesbos (630-570 a.C.) provavelmente compôs, apenas um poema sobrevive por completo; todo o resto consiste em fragmentos preservados em papiros e citações. Quanto à sua figura, a Encyclopedia of the Ancient Greek World diz:

Os únicos fatos confiáveis sobre a vida de Safo são aqueles que podem ser extraídos de seus versos. Safo nasceu em família aristocrática de Mitilene e, embora sua poesia não trate da política, ela aparentemente compartilhava os privilégios e agouros da vida das classes altas. (...) Escritores da posteridade dizem que Safo se casou – como era costume entre as mulheres de sua condição – e nós sabemos que ela teve uma filha, Cleïs.
Em nossa modernidade de sexo comercializado e política sexualizada, é necessário esforço para imaginar o mundo de Safo. Apesar de ela haver sido apropriada como precursora do feminismo desde os anos 70, seus poemas dão voz a uma mulher de honesto coração aberto a habitar uma ilha privada de emoções, completamente removida de grandes preocupações sociais. 
(págs. 301-302)

Embora Safo tenha tratado vividamente das múltiplas faces do sentimento erótico, portanto, seria um equívoco pensarmos que sua poesia não sai das fronteiras do amor: nos fragmentos que nos restam, o eu lírico sáfico se recorda, contempla, sofre, medita, louva, limita-se, anseia e demonstra claridade de linguagem, originalidade de imagens e intensidade de emoções como poucos poetas da antiguidade.
A seguir, traduzo, do irreverente inglês de Anne Carson (If Not, Winter, 2002) e do péssimo grego que sei, alguns versos sáficos que me são particularmente tocantes.


Fr. 24A

]ανάγα̣[
] . [ ]εμνάσεσθ᾿ ἀ[
κ]αὶ γὰρ ἄμμες ἐν νεό[τατι
ταῦ̣τ̣᾿ [ἐ]πόημμεν·
πό̣λ̣λ̣α̣ [μ]ὲν γὰρ καὶ κά[λα
. . . η̣ . [ ]μεν, πολι[
ἂμμε̣[ . ]ὀ[ξ]είαις δ̣[
. ] . . [ . ] . . [
–
]
]you will remember
]for we in our youth
did these things

yes many and beautiful things
]
]
]
–
]
]tu te recordarás
]pois em nossa juventude
nós fizemos coisas assim

sim coisas muitas e belas
]
]
]

*

Fr. 34

ἄστερες μὲν ἀμφὶ κάλαν σελάνναν
ἂψ ἀπυκρύπτοισι φάεννον εἶδος
ὄπποτα πλήθοισα μάλιστα λάμπη
γᾶν

ἀργυρία 
–
stars around the beautiful moon
hide back their luminous form
whenever all full she shines
on the earth

silvery 
–
estrelas ao redor da linda lua
escondem seu brilho
quando ela fulgura cheia
sobre a terra

prateada

*

Fr. 38

ὄπταις ἄμμε 
–
you burn me 
–
tu me queimas

*

Fr. 42

ταῖσι ψῦχρος μὲν ἔγεντ᾿ ὀ θῦμος,
πὰρ δ᾿ ἴεισι τὰ πτέρα
–
their heart grew cold
they let their wings down 
–
seu coração esfriou:
suas asas não mais voam

*

Fr. 50

ὀ μὲν γὰρ κάλος ὄσσον ἴδην πέλεται <κάλος>͵
ὀ δὲ κἄγαθος αὔτικα καὶ κάλος ἔσσεται.
–
For the man who is beautiful is beautiful to see 
but the good man will at once also beautiful be. 
–
O homem belo é belo de se olhar,
mas o bom será belo quando bom se revelar.

*

Fr. 52

ψαύην δ᾿ οὐ δοκίμωμ᾿ ὀράνω †δυσπαχέα†

I would not think to touch the sky with two arms 
–
Eu nunca pensaria em tocar no céu com os dois braços 

*

Frs. 74A, 74B, 74C

]ων ἔκα[
]αιπόλ[
]μ.[
]βροδο[
]ο̣νθ[
]φαιμ[

]α[
]ποθο̣[
].ώβα̣[

].[
]ας ἴδρω[
].υζ̣αδ.[
]ι̣ν[
–
] 
] goatherd 
] 
] roses 
] 
] 

] 
] longing 
] 

] 
] sweat 
] 
] 
–
] 
] pastor
] 
] rosas
] 
] 

] 
] anseio
] 

] 
] suor
] 
] 

Anne Carson (1950-), poeta, ensaísta e tradutora canadense

sábado, 31 de agosto de 2024

Upanishads: alguns trechos



Os Upanishads são poemas de conteúdo filosófico-religioso elaborados por autores anônimos em versos de distintos tamanhos, dos quais o mais velho foi provavelmente composto entre 800 e 400 a.C., na antiguidade védica. Em sânscrito, a palavra Upanishad significa, como um todo, o ato de sentar-se e escutar os ensinamentos do mestre. 

O que dá vida a estes milenares escritos é a compreensão de uma essência universal, eterna e transcendente. Se, para os poetas hindus, trata-se de Brahman, quer-nos parecer que outras tradições a descobriram através de nomes variados: Heráclito a conhece como Logos; o judeu cabalista, como Ein Sof; Emerson, como a Supra-Alma. A menos que sejamos capazes de nutrir uma reverência superior a barreiras histórico-culturais, nomes serão palavras vazias.

Àquele que sinceramente cultiva a fé e abre o coração, a lição suprema dos Upanishads fica clara: Deus não reside em dogmas, liturgias ou em qualquer coisa distante, e sim no nosso interior mais profundo, na nossa capacidade de exercer a empatia, na nossa escolha de cultivar a disciplina necessária para senti-lo. “Em verdade”, diz-nos o Mundaka Upanishad, “quem ascende ao conhecimento de Deus torna-se Deus”.

A seguir, traduzo (do inglês) algumas linhas que me são particularmente significativas.



(Isa Upanishad)

Aquele que vê todos os seres em seu próprio Eu e seu próprio Eu em todos os seres perde qualquer medo.

*

(Katha Upanishad)

Quando o sábio serena a mente e contempla o nosso invisível Deus, que, superior ao tempo, reside no mistério das coisas e no coração dos homens, ele se eleva acima do prazer e da dor.

Quando o indivíduo escuta, compreende e, encontrando a essência, alcança o Interior, ele então descobre o júbilo na Fonte do júbilo.

[...]

Nem mesmo através de intensos estudos pode-se alcançar o Atman. Isso é possível apenas se o indivíduo abandona seus hábitos torpes e cultiva a calma nas percepções, concentração na mente e paz no coração.

Quem realmente sabe onde ele reside? Supremo, seu poder reduz ao pó sacerdotes e guerreiros – seu poder aniquila até mesmo a morte.

*

(Prasna Upanishad)

Em sonhos, a mente contempla a sua própria imensidão. Aquilo que foi visto é visto novamente; aquilo que foi ouvido é ouvido novamente. Aquilo que foi sentido em distintos lugares e remotas regiões retorna à mente mais uma vez. Visto e não visto, ouvido e não ouvido, sentido e não sentido, a mente contempla tudo, pois a mente é tudo.

*

(Mundaka Upanishad)

Assim como rios fluindo ao oceano encontram sua paz final e desaparecem em nome e forma, também o sábio se liberta de seu nome e forma e se adentra na radiância do Espírito Supremo, que é maior do que qualquer grandeza.

Em verdade, quem ascende ao conhecimento de Deus torna-se Deus.

*

(Svetasvatara Upanishad)

Neste gigante Ciclo da criação, que rege a vida e a morte de todas as coisas, a alma humana vagueia como uma ave em aflito voo e pensa que Deus está distante. Quando o amor de Deus a toca, porém, a alma humana encontra sua própria imortalidade.

Louvado em canções é Brahman. Nele, estão Deus, o mundo e a alma: Brahman é a eterna essência de tudo. Quando o indivíduo vê Brahman em toda a criação, ele encontra paz em Brahman e se liberta de todas as agruras.

Deus sustenta a unidade deste universo: o visível e o oculto, o transitório e o eterno. A alma do homem é prisioneira do prazer e da dor – mas, quando encontra Deus, ela se liberta de todos os grilhões.

Existe a alma do homem, permeada pela sabedoria e pela tolice, pelo poder e pela fraqueza; existe a natureza, Prakriti, que é a criação pelo bem da alma; e existe Deus, infinito, onipresente, que guarda toda a criação. Quando o indivíduo conhece os três, o indivíduo conhece Brahman.

A matéria se esvai com o tempo, mas Deus reside na Eternidade e governa tanto a matéria como a alma. Meditando sobre ele, contemplando-o, entrando em comunhão com ele, cessam as ilusões terrenas.

Quando o indivíduo conhece Deus, ele se torna livre: suas dores chegam ao fim, não lhe há mais nascimento e morte. Quando, em união interior, o indivíduo transcende o mundo corpóreo, ele encontra o terceiro mundo, o mundo do Espírito, onde o poder de Tudo está e o indivíduo tem tudo: pois ele é um com o Um.

Entende que Brahman reside eternamente em ti: nada maior há para ser entendido. Quando tu contemplas Deus, o mundo e a alma, tu contemplas os Três: tu contemplas Brahman.


--


(Isa Upanishad)

Who sees all beings in his own Self, and his own Self in all beings, loses all fear.

*

(Katha Upanishad)

When the wise rests his mind in contemplation on our God beyond time, who invisibly dwells in the mystery of things and in the heart of man, then he rises above pleasures and sorrow.

When a man has heard and has understood and, finding the essence, reaches the Inmost, then he finds joy in the Source of joy. Nachiketas is a house open for thy Atman, thy God.

(...)

Not even through deep knowledge can the Atman be reached, unless evil ways are abandoned, and there is rest in the senses, concentration in the mind and peace in one's heart.

Who knows in truth where he is? The majesty of his power carries away priests and warriors, and death itself is carried away.

*

(Prasna Upanishad)

And in dreams the mind beholds its own immensity. What has been seen is seen again, and what has been heard is heard again. What has been felt in different places or far- away regions returns to the mind again. Seen and unseen, heard and unheard, felt and not felt, the mind sees all, since the mind is all.

*

(Mundaka Upanishad)

As rivers flowing into the ocean find their final peace and their name and form disappear, even so the wise become free from name and form and enter into the radiance of the Supreme Spirit who is greater than all greatness.

In truth who knows God becomes God.

*

(Svetasvatara Upanishad)

In this vast Wheel of creation wherein all things live and die, wanders round the human soul like a swan in restless flying, and she thinks that God is afar. But when the love of God comes down upon her, then she finds her own immortal life.

Exalted in songs has been Brahman. In him are God and the world and the soul, and he is the imperishable supporter of all. When the seers of Brahman see him in all creation, they find peace in Brahman and are free from all sorrows.

God upholds the oneness of this universe: the seen and the unseen, the transient and the eternal. The soul of man is bound by pleasure and pain; but when she sees God she is free from all fetters.

There is the soul of man with wisdom and unwisdom, power and powerlessness; there is nature, Prakriti, which is creation for the sake of the soul; and there is God, infinite, omnipresent, who watches the work of creation. When a man knows the three he knows Brahman.

Matter in time passes away, but God is for ever in Eternity, and he rules both matter and soul. By meditation on him, by contemplation of him, and by communion with him, there comes in the end the destruction of earthly delusion.

When a man knows God, he is free: his sorrows have an end, and birth and death are no more. When in inner union he is beyond the world of the body, then the third world, the world of the Spirit, is found, where the power of the All is, and man has all: for he is one with the one.

Know that Brahman is for ever in thee, and nothing higher is there to be known. When one sees God and the world and the soul, one sees the Three: one sees Brahman.


(Tradução do sânscrito de Juan Mascaró)



Coleção de obras antigas e medievais retratando o Buda (Humboldt Forum, Berlim, 8/24)

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Paul Celan: Corona

 


     A poesia do franco-romeno judeu Paul Celan (1920-1970), um dos autores a quem mais admiro, costuma resistir a leituras imediatistas: autorreferente, Celan tece versos expressionistas, fechados e, por vezes, quase ininteligíveis. Auxilia nossa leitura saber que, entre lembranças do holocausto, crises familiares e episódios de depressão profunda, o poeta renunciou à vida saltando irremediavelmente ao Rio Sena, em Paris.
     Tal qual Celan, atravessamos, hoje, tempos sombrios. Ainda assim, seguimos: viajamos, lemos poemas, somos amigos do outono, ensinamos o tempo a caminhar. E a obra de Celan continua a viver e irradiar beleza – uma beleza singular que expõe os vários contornos de uma consciência muito sensível; uma beleza que ecoa, simultaneamente, ausências e, como neste Corona, esperanças.


Corona


Autumn eats its leaf out of my hand: we are friends.

From the nuts we shell time and we teach it to walk:

then time returns to the shell.


In the mirror it’s Sunday,

in dream there is room for sleeping,

our mouths speak the truth.


My eye moves down to the sex of my loved one:

we look at each other,

we exchange dark words,

we love each other like poppy and recollection,

we sleep like wine in the conches,

like the sea in the moon’s blood ray.


We stand by the window embracing, and people look up from the street:

it is time they knew!

It is time the stone made an effort to flower,

time unrest had a beating heart.

It is time it were time.


It is time. 


(traduzido do alemão por Michael Hamburger)


––


Corona


O outono come a folha da minha mão: somos amigos.

Descascamos o tempo e o ensinamos a andar:

e o tempo retorna à casca.


No espelho é domingo,

no sonho podemos dormir,

nossa boca fala a verdade.


Meus olhos descem até o sexo da amada:

nós nos olhamos,

trocamos palavras negras,

amamo-nos como papoula e memória,

dormimos como vinho nas conchas,

como o mar sob o raio sangrento da lua.


Ficamos abraçados diante da janela e as pessoas nos olham da rua:

é tempo de saberem!

É tempo de a pedra querer florescer,

tempo de pulsar o coração da inquietude.

É tempo de ser tempo.


É tempo.



Visita ao túmulo do poeta (Cemitério de Thiais, Paris, 10/24)

Jorge Luis Borges: Two English Poems

  Jorge Luis Borges (1899-1986) é sempre uma referência: não sem motivo retornamos tão frequentemente aos seus escritos, pejados de uma erud...