Por ocasião de minhas recentes visitas a Santiago, estive a reler um pouco da lírica de Vicente Huidobro (1893-1948). Figura decisiva às vanguardas da primeira metade do século passado, Huidobro exerceu uma influência que ultrapassa as fronteiras de seu país natal por ter sido capaz de compreender a tensão entre o caráter dúctil da realidade sensível e as nuances do engenho artístico. Toda a sua criação, não à toa, propõe à poesia a própria instauração do mundo: o verso como ato inaugural, como acontecimento autônomo, como objeto que se basta a si mesmo.
Parece-me apropriado encerrar este 2025 – ano, à semelhança dos passados, marcado por calamidades das mais diversas ordens, por injustiças inaceitáveis e por um sentimento coletivo de esgotamento – com um sensível Prelúdio de Esperança. Nas estações derradeiras de sua obra, Huidobro nos lembra que sua voz é um organismo cósmico: ela canta, fala, chora, ri e atravessa as camadas múltiplas da condição humana, de modo a ensinar-nos que podemos, apesar das tantas agruras da vida, escutar a sombra dentro da flor, desatar o tempo, tornar-nos silhuetas de ar.
Tendo vivido o século dos eventos mais mortíferos da história humana, o poeta chileno sabe que a esperança não nasce quando simplesmente fechamos os olhos à dor, e sim quando singramos a dor com a consciência disposta, os sentidos em vigília e a linguagem aberta, para que da dor surja em nós a voz íntima capaz de recriar o mundo. Que adentremos os próximos anos, portanto, sem expectativas ingênuas, mas certos de alimentar, ainda que solitariamente, a esperança de uma existência mais bonita, nascida do embate eterno entre entre esquecimento e renovação.
Cantas e cantas falas e falas
E rodas pelo tempo
E choras como lírio desatado
E suspiras entre longos agonizantes que não sabem o que dizer
Às vezes também ris com teus ossos de grande noite
Assinalados em seu lugar de esqueleto
Designados em seu pedaço de terra saudando o céu
Pede acordo para teus altos interesses
No país da esperança que desperta em tuas costelas
Pede lição à árvore acusada por seus excessos
E às suas asas acostumadas a todo transe
Escuta a saída do rio escuta a sombra dentro da flor
Cantas e cantas falas e falas
E sonhas que a espécie esquecerá as trevas
Logo logo o esquecimento do pranto
As lágrimas armadas de luz tão distante
Como animais numerados que vão saindo do mar
Logo o esquecimento de tanta sombra suspirada
Logo o futuro de horizontes que conhecem sua paixão
Cantas e cantas
E tens uma voz acumulada
Tens uma voz com certos lados dolorosos
E certos recantos impacientes
E gotas de astros perdidos por seu terno coração
Tens cascatas em tuas regiões mais pensantes
Tens objetos feitos vidro no fundo dos teus olhos
Tens rotas nascidas para o som escuro da garganta
Podes dar um nó de portas com teus enigmas
E também desatar o tempo entre sons e presságios
Podes dar parte de tua luz no próprio caminho
Falas e falas
E já sabemos que é como o ruído da chuva
Que cai de cabeça sobre o campo
Mas teu ruído leva sonhos e pontas de folhas pensativas
Leva um bronze que escavou cinzas e montanhas
Cantas e cantas choras e choras
E no teu choro há o combate da morte e da marcha
Todas as últimas batalhas com sua cor de limite
E no teu silêncio crescem árvores tão decididas quanto as borrascas
E a morte obedece a seu mundo trêmulo
Ardendo em sonhos de chave visionária
Falas e falas olhas e olhas
E sentes a casca que te separa das ânsias alheias
Sentes, de dentro de ti mesmo,
Os impulsos do mundo, os batimentos da terra
E os tormentos de todas as crisálidas
Em sua escafandra de enigmas
Sentes as asas cegas de teus signos ofegantes
E essa água esquecida de seus mares que corre em tuas artérias
Cantas e cantas ris e ris
E tens uma doçura que te devora os ossos
E ouves ranger a terra que não sabe seu nome
E doem-lhe as árvores
Dói-lhe o mar com todas as suas ondas
Dói-lhe o passo dos homens
E os arroios escuros que se entrecruzam
Num pacto ungido pela nobreza de seus anos
Choras e choras olhas e olhas ris e ris
E te deténs pensativo em meio a tantos ecos
Nesta terra de entusiasmos secretos
Nestes ventos que trazem aparências de destinos
E contemplas de um lado o começo do mundo
Do outro a noite de cristais espantados
E partes, e buscas ansioso
Essa música rasgada por onde a casa se evade
E desaparece movendo o coração entre fantasmas
Quando o sol te substitui de repente
Que queres que eu te diga
A tempo de olhar, caem as plumas
Como velhice da palavra em traje de alma
Que queres que eu te diga
O mundo desce por tuas angústias ao teu encontro
Cantas e cantas falas e falas
E esqueces tudo para que tudo te esqueça
Falas e falas, cantas e cantas
Choras e choras olhas e olhas ris e ris
E te vais em silhueta de ar
—
PRELUDIO DE ESPERANZA
Cantas y cantas hablas y hablas
Y ruedas por el tiempo
Y lloras como lirio desatado
Y suspiras entre largos agonizantes que no saben qué decir
A veces también ríes con tus huesos de gran noche
Señalados en su sitio de esqueleto
Designados en su trozo de tierra saludando al cielo
Pide conformidad para tus altos intereses
En el país de la esperanza que despierta en tus costillas
Pide lección al árbol acusado por sus excesos
Y sus alas habituadas a todo trance
Escucha la salida del río escucha la sombra adentro de la flor
Cantas y cantas hablas y hablas
Y sueñas que la especie olvidará tinieblas
Pronto pronto el olvido del llanto
Las lágrimas armadas de tan lejana luz
Como animales numerados que van saliendo del mar
Pronto el olvido de tanta sombra suspirada
Pronto el futuro de horizontes que conoce su pasión
Cantas y cantas
Y tienes una voz acumulada
Tienes una voz con ciertos lados dolorosos
Y ciertos rincones impacientes
Y gotas de astros perdidos por su tierno corazón
Tienes cascadas en tus regiones más pensadoras
Tienes objetos convertidos en vidrio al fondo de tus ojos
Tienes rutas nacidas para el oscuro sonar de la garganta
Puedes hacer un nudo de puertas con tus enigmas
Y así mismo desatar el tiempo entre sonidos y presagios
Puedes dar una parte a tu luz en el camino mismo
Hablas y hablas
Y ya sabemos que es como el ruido de la lluvia
Que cae de cabeza sobre el campo
Pero tu ruido lleva sueños y puntas de hojas pensativas
Lleva un bronce que ha escarbado cenizas y montañas
Cantas y cantas lloras y lloras
Y en tu llorar hay el combate de la muerte y de la marcha
Todas las últimas batallas con su color de límite
Y en tu silencio crecen árboles tan decididos como las borrascas
Y la muerte obedece a su mundo tembloroso
Ardiendo en sueños de clave visionaria
Hablas y hablas miras y miras
Y sientes la corteza que te separa de las ansias ajenas
Sientes desde adentro de ti mismo
Los impulsos del mundo los latidos de la tierra
Y los tormentos de todas las crisálidas
En su escafandra de enigmas
Sientes las alas ciegas de tus signos jadeantes
Y esa agua olvidada de sus mares que corre en tus arterias
Cantas y cantas ríes y ríes
Y tienes una dulzura que te come los huesos
Y oyes crujir la tierra que no sabe su nombre
Y le duelen los árboles
Le duele el mar con todas sus olas
Le duele el paso de los hombres
Y los arroyos oscuros que se entrecruzan
En un pacto ungido por la nobleza de sus años
Lloras y lloras miras y miras ríes y ríes
Y te detienes pensativo en medio de tantos ecos
En esta tierra de entusiasmos secretos
En estos vientos que traen apariencias de destinos
Y contemplas de un lado al empezar del mundo
Del otro la noche de cristales espantados
Y te vas y buscas ansioso
Esa música rasgada por donde se evade la casa
Y desaparece moviendo el corazón entre fantasmas
Cuando el sol te reemplaza de repente
Qué quieres que te diga
A tiempo de mirar caen las plumas
Como vejez de palabra en traje de alma
Qué quieres que te diga
El mundo baja por tus angustias a tu encuentro
Cantas y cantas hablas y hablas
Y te olvidas de todo para que todo te olvide
Hablas y hablas cantas y cantas
Lloras y lloras miras y miras ríes y ríes
Y te vas en silueta de aire
(Poesía Reunida. Santiago: Lumen, 2021, pp. 289-291)





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