domingo, 5 de abril de 2026

Emerson: Natureza



    Poucos autores me são tão caros quanto Ralph Waldo Emerson (1803-1882).
    Em seus ensaios, Emerson buscou libertar-nos dos grilhões da mediocridade imposta por tempos de industrialismo predatório, relações engessadas e egocentrismo crescente. Não é à toa que poetas tão diversos como Thoreau, Whitman, Nietzsche, Borges e até mesmo o nosso Pessoa figuram-lhe entre os admiradores: todos eles viram fulgurar, nas palavras do mestre americano, uma centelha daquilo a que chamamos sabedoria, a mesma que, perene, habita as linhas dos Upanishads, dos fragmentos de Heráclito e do Evangelho Segundo São João.
    Mais que um manifesto do transcendentalismo, o inaugural Nature (Natureza), de 1836, é um convite à compreensão de nós próprios. “O amante da natureza”, escreve Emerson, “é aquele cujos sentidos interiores e exteriores ainda permanecem em harmonia; aquele que, mesmo na maturidade, preservou o espírito da infância.” E recuperar essa harmonia, sempre em risco, é tarefa que nos exige uma conversão do olhar, um retorno deliberado à capacidade primeva de experienciar o mundo sem artifícios.
    É buscando em nós disposição sincera que o mestre nos desafia: enfrentemos nossa pobreza espiritual, saiamos de nosso conforto e caminhemos, de pés descalços, para o contato direto com o real. Ao abrirmos nossos corações, assim, poderemos dizer como Emerson: “não sou nada, vejo tudo; os fluxos do Ser Universal circulam através de mim; sou parte ou partícula de Deus.”

    *
    Our age is retrospective. It builds the sepulchers of the fathers. It writes biographies, histories, and criticism. The foregoing generations beheld God and nature face to face; we, through their eyes. Why should not we also enjoy an original relation to the universe? The sun shines to-day also. Undoubtedly we have no questions to ask which are unanswerable. We must trust the perfection of the creation so far, as to believe that whatever curiosity the order of things has awakened in our minds, the order of things can satisfy.
    To go into solitude, a man needs to retire as much from his chamber as from society. I am not solitary whilst I read and write, though nobody is with me. But if a man would be alone, let him look at the stars. The stars awaken a certain reverence, because though always present, they are inaccessible; but all natural objects make a kindred impression, when the mind is open to their influence.
    To speak truly, few adult persons can see nature. The lover of nature is he whose inward and outward senses are still truly adjusted to each other; who has retained the spirit of infancy even into the era of manhood. In the woods, we return to reason and faith. There I feel that nothing can befall me in life,—no disgrace, no calamity, (leaving me my eyes,) which nature cannot repair. Standing on the bare ground,—my head bathed by the blithe air, and uplifted into infinite space,—all mean egotism vanishes. I become a transparent eye-ball; I am nothing; I see all; the currents of the Universal Being circulate through me; I am part or particle of God.
    The world thus exists to the soul to satisfy the desire of beauty. This element I call an ultimate end. No reason can be asked or given why the soul seeks beauty. Beauty, in its largest and profoundest sense, is one expression for the universe. God is the all-fair. Truth, and goodness, and beauty, are but different faces of the same All.
    Who looks upon a river in a meditative hour, and is not reminded of the flux of all things? Man is conscious of a universal soul within or behind his individual life, wherein, as in a firmament, the natures of Justice, Truth, Love, Freedom, arise and shine. And man in all ages and countries, embodies it in his language, as the Father.
    All things with which we deal, preach to us. What is a farm but a mute gospel? The fable of Proteus has a cordial truth. A leaf, a drop, a crystal, a moment of time is related to the whoie, and partakes of the perfection of the whole.
    Whether nature enjoy a substantial existence without, or is only in the apocalypse of the mind, it is alike useful and alike venerable to me. Nature is made to conspire with spirit to emancipate us. The true philosopher and the true poet are one, and a beauty, which is truth, and a truth, which is beauty, is the aim of both.
    The happiest man is he who learns from nature the lesson of worship. The reason why the world lacks unity, and lies broken and in heaps, is, because man is disunited with himself. No man ever prayed heartily, without learning something. Know, then, that the world exists for you. Adam called his house heaven and earth; Caesar called his house Rome; you perhaps call yours a cobler’s trade, a hundred acres of ploughed land, or a scholar’s garret. Yet line for line and point for point, your dominion is as great as theirs, though without fine names.

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    Nossa era é retrospectiva. Ela se constrói sobre os sepulcros de nossos antepassados; escreve biografias, histórias e críticas. As gerações passadas contemplaram Deus e a natureza face a face; nós, por meio de seus olhos. Mas por que também nós não poderíamos desfrutar de uma relação original com o universo? O sol brilha igualmente hoje. Sem dúvida, não há pergunta que possamos formular que seja irrespondível. Devemos confiar na perfeição da criação a ponto de crer: qualquer curiosidade que a ordem das coisas tenha despertado em nossas mentes a ordem das coisas é capaz de satisfazer.
    Para adentrar verdadeiramente a solitude, o homem tem de afastar-se tanto de seu próprio quarto quanto da sociedade. Não estou só quando leio ou escrevo, ainda que ninguém esteja comigo. Mas, se alguém deseja estar realmente só, que contemple as estrelas. As estrelas despertam um tipo de reverência, pois, embora sempre presentes, são inalcançáveis. E todos os elementos da natureza causam impressão semelhante, quando o espírito está aberto à sua influência.
    Falando com franqueza, poucos adultos são capazes de ver a natureza. O amante da natureza é aquele cujos sentidos interiores e exteriores ainda permanecem em harmonia; aquele que, mesmo na maturidade, preservou o espírito da infância, mesmo na maturidade. Quando caminhamos entre as árvores, retornamos à razão e à fé. Ali, sinto que nada pode me acontecer — nenhuma desonra, nenhuma calamidade (enquanto me restarem os olhos) — que a natureza não possa reparar. Ao me colocar sobre o solo nu — a cabeça banhada pelo ar alegre, elevada ao espaço infinito — todo mesquinho egotismo se dissipa. Torno-me um globo ocular translúcido; não sou nada, vejo tudo; os fluxos do Ser Universal circulam através de mim; sou parte ou partícula de Deus.
    O mundo existe, assim, para a alma, a fim de saciar seu desejo de beleza. A esse elemento eu chamo fim último. Não se pode pedir ou dar o motivo por que a alma busca a beleza. A beleza, em seu sentido mais amplo e profundo, é uma expressão do próprio universo. Deus é o absolutamente belo. Verdade, bondade e beleza são apenas diferentes rostos do mesmo Todo.
    Quem observa um rio em momento de contemplação e não é lembrado do fluxo de todas as coisas? O homem é consciente de uma alma universal que habita ou sustenta sua existência individual, na qual — como num firmamento — as essências da Justiça, da Verdade, do Amor e da Liberdade surgem e resplandecem. E o homem, em todas as eras e lugares, encarna essa presença em sua linguagem, nomeando-a Pai.
    Tudo com que lidamos nos prega uma lição. O que é uma fazenda senão um evangelho mudo? A fábula de Proteu contém uma verdade calorosa. Uma folha, uma gota, um cristal, um instante — todos estão ligados ao todo, e participam da perfeição do todo.
    Se a natureza desfruta de uma existência substancial fora de nós, ou se é apenas uma revelação da mente, ela me é igualmente útil e igualmente venerável. A natureza foi feita para conspirar com o espírito, a fim de nos libertar. O verdadeiro filósofo e o verdadeiro poeta são um só, e a beleza, que é a verdade, e a verdade, que é a beleza, são o fim de ambos.
    O homem mais feliz é aquele que aprende com a natureza a lição da reverência. O mundo carece de unidade e jaz despedaçado em fragmentos porque homem está em desunião consigo mesmo. Jamais alguém orou com sinceridade sem aprender algo. Sabe tu, pois, que o mundo existe para ti. Adão chamou sua morada de céu e terra; César chamou a sua de Roma; tu a chames, talvez, de ofício de sapateiro, de cem acres de terra arada, ou de sótão de estudioso. Ainda assim, linha por linha e ponto por ponto, teu domínio, embora careça de nomes grandiosos, é tão vasto quanto o deles.

(The Essential Writings of Ralph Waldo Emerson. Modern Library, 2000)

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