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domingo, 14 de junho de 2026

Jorge Luis Borges: Two English Poems



  Jorge Luis Borges (1899-1986) é sempre uma referência: não sem motivo retornamos tão frequentemente aos seus escritos, pejados de uma erudição que, alheia ao pedantismo, sabe singrar pelos temas eternos que nos instigam em nossa condição de humanos: a inevitabilidade do infinito, a possibilidade do livre arbítrio, os labirintos que atuam, a um só tempo, como enigma e verdade.
    Se, contudo, é sobretudo pela prosa cerebral que o mestre argentino se fez célebre, engana-se quem julga encontrar nele apenas o rigor do intelecto: no Borges que tanto nos fascina com seus artifícios geométricos, subsiste também um Borges ardentemente romântico, melancólico e desesperado. E, evidentemente, apenas na poesia essa realidade de desamparo pode aspirar à voz.
  Nos belos Two English Poems, de 1964, compostos na língua de seus antepassados britânicos, o homem se desnuda do recluso bibliófilo para retornar ao espírito das angústias que marcaram seus primeiros versos de jovem. Apaixonado, o poeta enfrenta a noite. E, diante da figura amada, são vazios seus jogos verbais; resta ao poeta oferecer à figura amada aquilo que ele tem de verdadeiramente sagrado: sua própria ruína, suas ruas magras, sua solidão.
    É nesse despojamento absoluto, queremos crer, que Borges atinge a sua mais elevada nota. Ao abrir mão da confortável segurança de seu universo mental do afastamento, dos livros e dos espelhos, ele se prova um escritor, de fato, completo: uma alma capaz de entregar-nos um pacto de risco, uma subordinação ao outro em que o amor se afirma, afinal, pela coragem de revelar-se frágil.


    Two English Poems

    I
    The useless dawn finds me in a deserted streetcorner; I have outlived the night.
    Nights are proud waves: darkblue topheavy waves laden with all the hues of deep spoil, laden with things unlikely and desirable.
    Nights have a habit of mysterious gifts and refusals, of things half given away, half withheld, of joys with a dark hemisphere. Nights act that way, I tell you.
    The surge, that night, left me the customary shreds and odd ends: some hated friends to chat with, music for dreams, and the smoking of bitter ashes. The things my hungry heart has no use for.
    The big wave brought you.
    Words, any words, your laughter; and you so lazily and incessantly beautiful. We talked and you have forgotten the words.
    The shattering dawn finds me in a deserted street of my city.
    Your profile turned away, the sounds that go to make your name, the lilt of your laughter: these are illustrious toys you have left me.
    I turn them over in the dawn, I lose them, I find them; I tell them to the few stray starsdogs and the few stray stars of the dawn.
    Your dark rich life...
    I must get at you, somehow: I put away those illustrious toys you have left me, I want your hidden look, your real smile — that lonely, mocking smile your cool mirror knows.

    II
    What can I hold you with?
    I offer you lean streets, desperate sunsets, the moon of ragged suburbs.
    I offer you the bitterness of a man who has looked long and long at the lonely moon.
    I offer you my ancestors, my dead men, the ghosts that living men have honoured in marble: my father’s father killed in the frontier of Buenos Aires, two bullets through his lungs, bearded and dead, wrapped by his soldiers in the hide of a cow; my mother’s grandfather — just twenty four — heading a charge of three hundred men in Peru, now ghosts on vanished horses.
    I offer you whatever insight my books may hold, whatever manliness or humour my life.
    I offer you the loyalty of a man who has never been loyal.
    I offer you that kernel of myself that I have saved, somehow — the central heart that deals not in words, traffics not with dreams and is untouched by time, by joy, by adversities.
    I offer you the memory of a yellow rose seen at sunset, years before you were born.
    I offer you explanations of yourself, theories about yourself, authentic and surprising news of yourself.
    I can give you my loneliness, my darkness, the hunger of my heart; I am trying to bribe you with uncertainty, with danger, with defeat.

    *

    Two English Poems 
    [Dois Poemas Ingleses]

    I
    A inútil aurora me encontra numa esquina deserta; eu sobrevivi à noite.
    Noites são ondas orgulhosas: ondas de escuro azul e crista densa, matizadas pelos vários tons de restos profundos, carregadas de coisas improváveis e desejáveis.
    Noites têm um hábito de misteriosas dádivas, de recusas misteriosas, de coisas meio dadas, meio retidas, de alegrias com um escuro hemisfério. Eu te digo: assim são as noites.
    A maré, naquela noite, deixou-me os habituais retalhos e sobras: alguns odiados amigos com quem bater papo, música para sonhos e a fumaça de cinzas amargas. Coisas sem uso ao meu coração faminto.
    A grande onda te trouxe.
    Palavras, não importa quais palavras, tua risada; e tu, tão incessantemente, tão preguiçosamente linda; nós conversamos e tu esqueceste as palavras.
    A devastadora aurora me encontra numa rua deserta de minha cidade.
    Teu perfil virado, os sons que formam teu nome, a melodia da tua risada: são estes os ilustres brinquedos que tu me deixaste.
    Quando brilha a aurora, eu os revolvo, eu os perco, eu os encontro; eu falo deles aos poucos cães errantes e às poucas estrelas errantes da aurora.
    Tua sombria, rica vida…
    De alguma maneira, tenho de alcançar-te: ponho de lado os ilustres brinquedos que me deixaste; quero o teu olhar oculto, o teu verdadeiro sorriso — aquele solitário, debochado sorriso que teu espelho frio conhece.

    II
    Com que te posso reter?
    Eu te ofereço ruas magras, desesperados poentes, a lua de subúrbios maltrapilhos.
    Eu te ofereço a amargura de um homem que contemplou, longamente, longamente, a lua solitária.
    Eu te ofereço meus ancestrais, meus falecidos, os fantasmas que os vivos honraram em mármore: o pai de meu pai morto na fronteira de Buenos Aires, duas balas por entre seus pulmões, barbudo e falecido, envolto por seus soldados em couro de vaca; o avô de minha mãe — com só vinte e quatro anos — comandando um contingente de trezentos homens no Peru, hoje fantasmas sobre cavalos extintos.
    Eu te ofereço tudo o que possa haver de sabedoria em meus livros, tudo o que possa de virilidade ou de humor em minha vida.
    Eu te ofereço a lealdade de um homem que nunca foi leal.
    Eu te ofereço esse meu cerne que, de alguma maneira, consegui preservar — o coração fulcral que não lida com palavras, não negocia com sonhos e não é tocado pelo tempo, por alegrias, por adversidades.
    Eu te ofereço a memória de uma rosa amarela vista durante o pôr do sol, anos antes do teu nascimento.
    Eu te ofereço explicações sobre ti mesma, teorias de ti mesma, novidades autênticas e surpreendentes sobre ti mesma.
    Eu te posso dar minha solidão, minha escuridão, a fome do meu coração; estou tentando subornar-te com incerteza, com perigo, com derrota.

El Otro, el Mismo (1964)

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Jorge Luis Borges: Os justos

 


    No Livro dos Seres Imaginários, Jorge Luis Borges (1899-1986) diz: “Há na terra, e sempre houve, 36 homens íntegros cuja missão é justificar o mundo perante Deus. São os Lamed Wufniks. Não se conhecem entre si e são muito pobres. Se um homem chega a saber que é um Lamed Wufnik morre imediatamente e há outro, talvez em outra região do planeta, que toma seu lugar. São, sem suspeitá-lo, os secretos pilares do universo. Se não fosse por eles, Deus aniquilaria o gênero humano. São nossos salvadores e não o sabem”.
    O bardo argentino parece ter inspirado-se nos Lamed Wufniks para compor um poema que figura entre seus mais belos. Os justos, publicado em 1981, consiste num fragmento que nos maravilha pela delicadeza de suas imagens e pela simplicidade de sua enumeração: Borges nos fala de pessoas singelas cuja forma de contribuir para o bem é sutil, porque reside na beleza das pequenas coisas – cuidar do jardim, apreciar a música, acariciar um animal adormecido, preferir que os outros tenham razão.
    Borges nos mostra aqueles que são, sem que o suspeitem, os secretos pilares do universo. Os justos, em seu sincero comedimento, representam nobres exemplos de ajuda, sacrifício e humildade. Cumpre-nos, se não conseguimos polir plenamente a nós mesmos, ao menos aprender algo deles.


LOS JUSTOS

Un hombre que cultiva su jardín, como quería Voltaire.
El que agradece que en la tierra haya música.
El que descubre con placer una etimología.
Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.
El ceramista que premedita un color y una forma.
El tipógrafo que compone bien esta página, que tal vez no le agrada.
Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
El que acaricia a un animal dormido.
El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
El que prefiere que los otros tengan razón.
Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo.



OS JUSTOS

Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que acaricia um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão salvando o mundo.


(BORGES, Jorge Luis. Obras completas II, 1975 – 1985
Buenos Aires: María Kodama y Emecé Editores S.A., 1989, pág. 326).

Jorge Luis Borges: Two English Poems

  Jorge Luis Borges (1899-1986) é sempre uma referência: não sem motivo retornamos tão frequentemente aos seus escritos, pejados de uma erud...