Jorge Luis Borges (1899-1986) é sempre uma referência: não sem motivo retornamos tão frequentemente aos seus escritos, pejados de uma erudição que, alheia ao pedantismo, sabe singrar pelos temas eternos que nos instigam em nossa condição de humanos: a inevitabilidade do infinito, a possibilidade do livre arbítrio, os labirintos que atuam, a um só tempo, como enigma e verdade.
Se, contudo, é sobretudo pela prosa cerebral que o mestre argentino se fez célebre, engana-se quem julga encontrar nele apenas o rigor do intelecto: no Borges que tanto nos fascina com seus artifícios geométricos, subsiste também um Borges ardentemente romântico, melancólico e desesperado. E, evidentemente, apenas na poesia essa realidade de desamparo pode aspirar à voz.
Nos belos Two English Poems, de 1964, compostos na língua de seus antepassados britânicos, o homem se desnuda do recluso bibliófilo para retornar ao espírito das angústias que marcaram seus primeiros versos de jovem. Apaixonado, o poeta enfrenta a noite. E, diante da figura amada, são vazios seus jogos verbais; resta ao poeta oferecer à figura amada aquilo que ele tem de verdadeiramente sagrado: sua própria ruína, suas ruas magras, sua solidão.
É nesse despojamento absoluto, queremos crer, que Borges atinge a sua mais elevada nota. Ao abrir mão da confortável segurança de seu universo mental do afastamento, dos livros e dos espelhos, ele se prova um escritor, de fato, completo: uma alma capaz de entregar-nos um pacto de risco, uma subordinação ao outro em que o amor se afirma, afinal, pela coragem de revelar-se frágil.
Two English Poems
I
The useless dawn finds me in a deserted streetcorner; I have outlived the night.Nights are proud waves: darkblue topheavy waves laden with all hues of deep spoil, laden with things unlikely and desirable.
Nights have a habit of mysterious gifts and refusals, of things half given away, half withheld, of joys with a dark hemisphere. Nights act that way, I tell you.
The surge, that night, left me the customary shreds and odd ends: some hated friends to chat with, music for dreams, and the smoking of bitter ashes. The things my hungry heart has no use for.
The big wave brought you.
Words, any words, your laughter; and you so lazily and incessantly beautiful. We talked and you have forgotten the words.
The shattering dawn finds me in a deserted street of my city.
Your profile turned away, the sounds that go to make your name, the lilt of your laughter: these are illustrious toys you have left me.
I turn them over in the dawn, I lose them, I find them; I tell them to the few stray starsdogs and the few stray stars of the dawn.
Your dark rich life...
I must get at you, somehow: I put away those illustrious toys you have left me, I want your hidden look, your real smile — that lonely, mocking smile your cool mirror knows.
II
What can I hold you with?
I offer you lean streets, desperate sunsets, the moon of ragged suburbs.
I offer you the bitterness of a man who has looked long and long at the lonely moon.
I offer you lean streets, desperate sunsets, the moon of ragged suburbs.
I offer you the bitterness of a man who has looked long and long at the lonely moon.
I offer you my ancestors, my dead men, the ghosts that living men have honoured in marble: my father’s father killed in the frontier of Buenos Aires, two bullets through his lungs, bearded and dead, wrapped by his soldiers in the hide of a cow; my mother’s grandfather — just twenty four — heading a charge of three hundred men in Peru, now ghosts on vanished horses.
I offer you whatever insight my books may hold, whatever manliness or humour my life.
I offer you the loyalty of a man who has never been loyal.
I offer you that kernel of myself that I have saved, somehow — the central heart that deals not in words, traffics not with dreams and is untouched by time, by joy, by adversities.
I offer you the memory of a yellow rose seen at sunset, years before you were born.
I offer you explanations of yourself, theories about yourself, authentic and surprising news of yourself.
I can give you my loneliness, my darkness, the hunger of my heart; I am trying to bribe you with uncertainty, with danger, with defeat.
*
Two English Poems
[Dois Poemas Ingleses]
I
A inútil aurora me encontra numa esquina deserta; eu sobrevivi à noite.
Noites são ondas orgulhosas: ondas de escuro azul e crista densa, matizadas pelos vários tons de restos profundos, carregadas de coisas improváveis e desejáveis.
Noites têm um hábito de misteriosas dádivas, de recusas misteriosas, de coisas meio dadas, meio retidas, de alegrias com um escuro hemisfério. Eu te digo: assim são as noites.
A maré, naquela noite, deixou-me os habituais retalhos e sobras: alguns odiados amigos com quem bater papo, música para sonhos e a fumaça de cinzas amargas. Coisas sem uso ao meu coração faminto.
A grande onda te trouxe.
Palavras, não importa quais palavras, tua risada; e tu, tão incessantemente, tão preguiçosamente linda; nós conversamos e tu esqueceste as palavras.
A devastadora aurora me encontra numa rua deserta de minha cidade.
Teu perfil virado, os sons que formam teu nome, a melodia da tua risada: são estes os ilustres brinquedos que tu me deixaste.
Quando brilha a aurora, eu os revolvo, eu os perco, eu os encontro; eu falo deles aos poucos cães errantes e às poucas estrelas errantes da aurora.
Tua sombria, rica vida…
De alguma maneira, tenho de alcançar-te: ponho de lado os ilustres brinquedos que me deixaste; quero o teu olhar oculto, o teu verdadeiro sorriso — aquele solitário, debochado sorriso que teu espelho frio conhece.
II
II
Com que te posso reter?
Eu te ofereço ruas magras, desesperados poentes, a lua de subúrbios maltrapilhos.
Eu te ofereço a amargura de um homem que contemplou, longamente, longamente, a lua solitária.
Eu te ofereço meus ancestrais, meus falecidos, os fantasmas que os vivos honraram em mármore: o pai de meu pai morto na fronteira de Buenos Aires, duas balas por entre seus pulmões, barbudo e falecido, envolto por seus soldados em couro de vaca; o avô de minha mãe — com só vinte e quatro anos — comandando um contingente de trezentos homens no Peru, hoje fantasmas sobre cavalos extintos.
Eu te ofereço tudo o que possa haver de sabedoria em meus livros, tudo o que possa de virilidade ou de humor em minha vida.
Eu te ofereço a lealdade de um homem que nunca foi leal.
Eu te ofereço esse meu cerne que, de alguma maneira, consegui preservar — o coração fulcral que não lida com palavras, não negocia com sonhos e não é tocado pelo tempo, por alegrias, por adversidades.
Eu te ofereço a memória de uma rosa amarela vista durante o pôr do sol, anos antes do teu nascimento.
Eu te ofereço explicações sobre ti mesma, teorias de ti mesma, novidades autênticas e surpreendentes sobre ti mesma.
Eu te posso dar minha solidão, minha escuridão, a fome do meu coração; estou tentando subornar-te com incerteza, com perigo, com derrota.
El Otro, el Mismo (1964)

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