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domingo, 14 de junho de 2026

Jorge Luis Borges: Two English Poems



  Jorge Luis Borges (1899-1986) é sempre uma referência: não sem motivo retornamos tão frequentemente aos seus escritos, pejados de uma erudição que, alheia ao pedantismo, sabe singrar pelos temas eternos que nos instigam em nossa condição de humanos: a inevitabilidade do infinito, a possibilidade do livre arbítrio, os labirintos que atuam, a um só tempo, como enigma e verdade.
    Se, contudo, é sobretudo pela prosa cerebral que o mestre argentino se fez célebre, engana-se quem julga encontrar nele apenas o rigor do intelecto: no Borges que tanto nos fascina com seus artifícios geométricos, subsiste também um Borges ardentemente romântico, melancólico e desesperado. E, evidentemente, apenas na poesia essa realidade de desamparo pode aspirar à voz.
  Nos belos Two English Poems, de 1964, compostos na língua de seus antepassados britânicos, o homem se desnuda do recluso bibliófilo para retornar ao espírito das angústias que marcaram seus primeiros versos de jovem. Apaixonado, o poeta enfrenta a noite. E, diante da figura amada, são vazios seus jogos verbais; resta ao poeta oferecer à figura amada aquilo que ele tem de verdadeiramente sagrado: sua própria ruína, suas ruas magras, sua solidão.
    É nesse despojamento absoluto, queremos crer, que Borges atinge a sua mais elevada nota. Ao abrir mão da confortável segurança de seu universo mental do afastamento, dos livros e dos espelhos, ele se prova um escritor, de fato, completo: uma alma capaz de entregar-nos um pacto de risco, uma subordinação ao outro em que o amor se afirma, afinal, pela coragem de revelar-se frágil.


    Two English Poems

    I
    The useless dawn finds me in a deserted streetcorner; I have outlived the night.
    Nights are proud waves: darkblue topheavy waves laden with all the hues of deep spoil, laden with things unlikely and desirable.
    Nights have a habit of mysterious gifts and refusals, of things half given away, half withheld, of joys with a dark hemisphere. Nights act that way, I tell you.
    The surge, that night, left me the customary shreds and odd ends: some hated friends to chat with, music for dreams, and the smoking of bitter ashes. The things my hungry heart has no use for.
    The big wave brought you.
    Words, any words, your laughter; and you so lazily and incessantly beautiful. We talked and you have forgotten the words.
    The shattering dawn finds me in a deserted street of my city.
    Your profile turned away, the sounds that go to make your name, the lilt of your laughter: these are illustrious toys you have left me.
    I turn them over in the dawn, I lose them, I find them; I tell them to the few stray starsdogs and the few stray stars of the dawn.
    Your dark rich life...
    I must get at you, somehow: I put away those illustrious toys you have left me, I want your hidden look, your real smile — that lonely, mocking smile your cool mirror knows.

    II
    What can I hold you with?
    I offer you lean streets, desperate sunsets, the moon of ragged suburbs.
    I offer you the bitterness of a man who has looked long and long at the lonely moon.
    I offer you my ancestors, my dead men, the ghosts that living men have honoured in marble: my father’s father killed in the frontier of Buenos Aires, two bullets through his lungs, bearded and dead, wrapped by his soldiers in the hide of a cow; my mother’s grandfather — just twenty four — heading a charge of three hundred men in Peru, now ghosts on vanished horses.
    I offer you whatever insight my books may hold, whatever manliness or humour my life.
    I offer you the loyalty of a man who has never been loyal.
    I offer you that kernel of myself that I have saved, somehow — the central heart that deals not in words, traffics not with dreams and is untouched by time, by joy, by adversities.
    I offer you the memory of a yellow rose seen at sunset, years before you were born.
    I offer you explanations of yourself, theories about yourself, authentic and surprising news of yourself.
    I can give you my loneliness, my darkness, the hunger of my heart; I am trying to bribe you with uncertainty, with danger, with defeat.

    *

    Two English Poems 
    [Dois Poemas Ingleses]

    I
    A inútil aurora me encontra numa esquina deserta; eu sobrevivi à noite.
    Noites são ondas orgulhosas: ondas de escuro azul e crista densa, matizadas pelos vários tons de restos profundos, carregadas de coisas improváveis e desejáveis.
    Noites têm um hábito de misteriosas dádivas, de recusas misteriosas, de coisas meio dadas, meio retidas, de alegrias com um escuro hemisfério. Eu te digo: assim são as noites.
    A maré, naquela noite, deixou-me os habituais retalhos e sobras: alguns odiados amigos com quem bater papo, música para sonhos e a fumaça de cinzas amargas. Coisas sem uso ao meu coração faminto.
    A grande onda te trouxe.
    Palavras, não importa quais palavras, tua risada; e tu, tão incessantemente, tão preguiçosamente linda; nós conversamos e tu esqueceste as palavras.
    A devastadora aurora me encontra numa rua deserta de minha cidade.
    Teu perfil virado, os sons que formam teu nome, a melodia da tua risada: são estes os ilustres brinquedos que tu me deixaste.
    Quando brilha a aurora, eu os revolvo, eu os perco, eu os encontro; eu falo deles aos poucos cães errantes e às poucas estrelas errantes da aurora.
    Tua sombria, rica vida…
    De alguma maneira, tenho de alcançar-te: ponho de lado os ilustres brinquedos que me deixaste; quero o teu olhar oculto, o teu verdadeiro sorriso — aquele solitário, debochado sorriso que teu espelho frio conhece.

    II
    Com que te posso reter?
    Eu te ofereço ruas magras, desesperados poentes, a lua de subúrbios maltrapilhos.
    Eu te ofereço a amargura de um homem que contemplou, longamente, longamente, a lua solitária.
    Eu te ofereço meus ancestrais, meus falecidos, os fantasmas que os vivos honraram em mármore: o pai de meu pai morto na fronteira de Buenos Aires, duas balas por entre seus pulmões, barbudo e falecido, envolto por seus soldados em couro de vaca; o avô de minha mãe — com só vinte e quatro anos — comandando um contingente de trezentos homens no Peru, hoje fantasmas sobre cavalos extintos.
    Eu te ofereço tudo o que possa haver de sabedoria em meus livros, tudo o que possa de virilidade ou de humor em minha vida.
    Eu te ofereço a lealdade de um homem que nunca foi leal.
    Eu te ofereço esse meu cerne que, de alguma maneira, consegui preservar — o coração fulcral que não lida com palavras, não negocia com sonhos e não é tocado pelo tempo, por alegrias, por adversidades.
    Eu te ofereço a memória de uma rosa amarela vista durante o pôr do sol, anos antes do teu nascimento.
    Eu te ofereço explicações sobre ti mesma, teorias de ti mesma, novidades autênticas e surpreendentes sobre ti mesma.
    Eu te posso dar minha solidão, minha escuridão, a fome do meu coração; estou tentando subornar-te com incerteza, com perigo, com derrota.

El Otro, el Mismo (1964)

domingo, 28 de dezembro de 2025

Vicente Huidobro: Prelúdio de Esperança



    Por ocasião de minhas recentes visitas a Santiago, estive a reler um pouco da lírica de Vicente Huidobro (1893-1948). Figura decisiva às vanguardas da primeira metade do século passado, Huidobro exerceu uma influência que ultrapassa as fronteiras de seu país natal por ter sido capaz de compreender a tensão entre o caráter dúctil da realidade sensível e as nuances do engenho artístico. Toda a sua criação, não à toa, propõe à poesia a própria instauração do mundo: o verso como ato inaugural, como acontecimento autônomo, como objeto que se basta a si mesmo.
    Parece-me apropriado encerrar este 2025 – ano, à semelhança dos passados, marcado por calamidades das mais diversas ordens, por injustiças inaceitáveis e por um sentimento coletivo de esgotamento – com um sensível Prelúdio de Esperança. Nas estações derradeiras de sua obra, Huidobro nos lembra que sua voz é um organismo cósmico: ela canta, fala, chora, ri e atravessa as camadas múltiplas da condição humana, de modo a ensinar-nos que podemos, apesar das tantas agruras da vida, escutar a sombra dentro da flor, desatar o tempo, tornar-nos silhuetas de ar.
    Tendo vivido o século dos eventos mais mortíferos da história humana, o poeta chileno sabe que a esperança não nasce quando simplesmente fechamos os olhos à dor, e sim quando singramos a dor com a consciência disposta, os sentidos em vigília e a linguagem aberta, para que da dor surja em nós a voz íntima capaz de recriar o mundo. Que adentremos os próximos anos, portanto, sem expectativas ingênuas, mas certos de alimentar, ainda que solitariamente, a esperança de uma existência mais bonita, nascida do embate eterno entre entre esquecimento e renovação.


PRELÚDIO DE ESPERANÇA

Cantas e cantas falas e falas
E rodas pelo tempo
E choras como lírio desatado
E suspiras entre longos agonizantes que não sabem o que dizer
Às vezes também ris com teus ossos de grande noite
Assinalados em seu lugar de esqueleto
Designados em seu pedaço de terra saudando o céu
Pede acordo para teus altos interesses
No país da esperança que desperta em tuas costelas
Pede lição à árvore acusada por seus excessos
E às suas asas acostumadas a todo transe
Escuta a saída do rio escuta a sombra dentro da flor

Cantas e cantas falas e falas
E sonhas que a espécie esquecerá as trevas
Logo logo o esquecimento do pranto
As lágrimas armadas de luz tão distante
Como animais numerados que vão saindo do mar
Logo o esquecimento de tanta sombra suspirada
Logo o futuro de horizontes que conhecem sua paixão

Cantas e cantas
E tens uma voz acumulada
Tens uma voz com certos lados dolorosos
E certos recantos impacientes
E gotas de astros perdidos por seu terno coração
Tens cascatas em tuas regiões mais pensantes
Tens objetos feitos vidro no fundo dos teus olhos
Tens rotas nascidas para o som escuro da garganta
Podes dar um nó de portas com teus enigmas
E também desatar o tempo entre sons e presságios
Podes dar parte de tua luz no próprio caminho

Falas e falas
E já sabemos que é como o ruído da chuva
Que cai de cabeça sobre o campo
Mas teu ruído leva sonhos e pontas de folhas pensativas
Leva um bronze que escavou cinzas e montanhas
Cantas e cantas choras e choras
E no teu choro há o combate da morte e da marcha
Todas as últimas batalhas com sua cor de limite
E no teu silêncio crescem árvores tão decididas quanto as borrascas
E a morte obedece a seu mundo trêmulo
Ardendo em sonhos de chave visionária

Falas e falas olhas e olhas
E sentes a casca que te separa das ânsias alheias
Sentes, de dentro de ti mesmo,
Os impulsos do mundo, os batimentos da terra
E os tormentos de todas as crisálidas
Em sua escafandra de enigmas
Sentes as asas cegas de teus signos ofegantes
E essa água esquecida de seus mares que corre em tuas artérias

Cantas e cantas ris e ris
E tens uma doçura que te devora os ossos
E ouves ranger a terra que não sabe seu nome
E doem-lhe as árvores
Dói-lhe o mar com todas as suas ondas
Dói-lhe o passo dos homens
E os arroios escuros que se entrecruzam
Num pacto ungido pela nobreza de seus anos

Choras e choras olhas e olhas ris e ris
E te deténs pensativo em meio a tantos ecos
Nesta terra de entusiasmos secretos
Nestes ventos que trazem aparências de destinos
E contemplas de um lado o começo do mundo
Do outro a noite de cristais espantados
E partes, e buscas ansioso
Essa música rasgada por onde a casa se evade
E desaparece movendo o coração entre fantasmas
Quando o sol te substitui de repente
Que queres que eu te diga
A tempo de olhar, caem as plumas
Como velhice da palavra em traje de alma
Que queres que eu te diga
O mundo desce por tuas angústias ao teu encontro

Cantas e cantas falas e falas
E esqueces tudo para que tudo te esqueça
Falas e falas, cantas e cantas
Choras e choras olhas e olhas ris e ris
E te vais em silhueta de ar



PRELUDIO DE ESPERANZA

Cantas y cantas hablas y hablas
Y ruedas por el tiempo
Y lloras como lirio desatado
Y suspiras entre largos agonizantes que no saben qué decir
A veces también ríes con tus huesos de gran noche
Señalados en su sitio de esqueleto
Designados en su trozo de tierra saludando al cielo
Pide conformidad para tus altos intereses
En el país de la esperanza que despierta en tus costillas
Pide lección al árbol acusado por sus excesos
Y sus alas habituadas a todo trance
Escucha la salida del río escucha la sombra adentro de la flor

Cantas y cantas hablas y hablas
Y sueñas que la especie olvidará tinieblas
Pronto pronto el olvido del llanto
Las lágrimas armadas de tan lejana luz
Como animales numerados que van saliendo del mar
Pronto el olvido de tanta sombra suspirada
Pronto el futuro de horizontes que conoce su pasión

Cantas y cantas
Y tienes una voz acumulada
Tienes una voz con ciertos lados dolorosos
Y ciertos rincones impacientes
Y gotas de astros perdidos por su tierno corazón
Tienes cascadas en tus regiones más pensadoras
Tienes objetos convertidos en vidrio al fondo de tus ojos
Tienes rutas nacidas para el oscuro sonar de la garganta
Puedes hacer un nudo de puertas con tus enigmas
Y así mismo desatar el tiempo entre sonidos y presagios
Puedes dar una parte a tu luz en el camino mismo

Hablas y hablas
Y ya sabemos que es como el ruido de la lluvia
Que cae de cabeza sobre el campo
Pero tu ruido lleva sueños y puntas de hojas pensativas
Lleva un bronce que ha escarbado cenizas y montañas
Cantas y cantas lloras y lloras
Y en tu llorar hay el combate de la muerte y de la marcha
Todas las últimas batallas con su color de límite
Y en tu silencio crecen árboles tan decididos como las borrascas
Y la muerte obedece a su mundo tembloroso
Ardiendo en sueños de clave visionaria

Hablas y hablas miras y miras
Y sientes la corteza que te separa de las ansias ajenas
Sientes desde adentro de ti mismo
Los impulsos del mundo los latidos de la tierra
Y los tormentos de todas las crisálidas
En su escafandra de enigmas
Sientes las alas ciegas de tus signos jadeantes
Y esa agua olvidada de sus mares que corre en tus arterias

Cantas y cantas ríes y ríes
Y tienes una dulzura que te come los huesos
Y oyes crujir la tierra que no sabe su nombre
Y le duelen los árboles
Le duele el mar con todas sus olas
Le duele el paso de los hombres
Y los arroyos oscuros que se entrecruzan
En un pacto ungido por la nobleza de sus años

Lloras y lloras miras y miras ríes y ríes
Y te detienes pensativo en medio de tantos ecos
En esta tierra de entusiasmos secretos
En estos vientos que traen apariencias de destinos
Y contemplas de un lado al empezar del mundo
Del otro la noche de cristales espantados
Y te vas y buscas ansioso
Esa música rasgada por donde se evade la casa
Y desaparece moviendo el corazón entre fantasmas
Cuando el sol te reemplaza de repente
Qué quieres que te diga
A tiempo de mirar caen las plumas
Como vejez de palabra en traje de alma
Qué quieres que te diga
El mundo baja por tus angustias a tu encuentro

Cantas y cantas hablas y hablas
Y te olvidas de todo para que todo te olvide
Hablas y hablas cantas y cantas
Lloras y lloras miras y miras ríes y ríes
Y te vas en silueta de aire

(Poesía Reunida. Santiago: Lumen, 2021, pp. 289-291)

terça-feira, 3 de junho de 2025

Georg Trakl: Meu Coração ao Entardecer

 


    Entoando sua típica verve enigmática, carregada, a um só tempo, de timbres frementes e serenos – fato característico de grande parte dos versos expressionistas –, o austríaco Georg Trakl (1887-1914) demonstra-nos que bem sabe dispor as palavras para pintar um mundo indiferente, envelhecido e cansado, mas ainda capaz de revelar ricos resquícios de Beleza.
    Tal como o tênue lampejo da taverna que fulgura ao viajante solitário, Trakl, cálido na vastidão escura, cintila entre a permanência e o abandono. E a linda embriaguez proporcionada pelo vinho na paisagem crepuscular não é apenas física, mas transcendental — culminando, enfim, num gesto de entrega ao doce absurdo da vida. É no beijo do orvalho noturno, afinal, que a existência nos parece suspirar um pouco de poesia.


My Heart at Evening

At nightfall you hear the bat shriek.
Two black horses leap across the meadow.
A red maple rustles.
Along the way a small tavern appears to the traveler.
The young wine and nuts are delicious.
It is splendid to stagger, drunk, through the darkening forest.
Through black branches comes the ringing of grieving bells;
Dew covers your face.

(em Selected Poems of Georg Trakl, trad. de Daniel Simko, p. 39.)

Meu Coração ao Entardecer

Quando cai a noite, tu ouves o morcego.
Negros, dois cavalos saltam pelo gramado.
Sussurra um bordo rubro.
Uma pequena taverna brilha ao andarilho.
Delicioso é o novo vinho, a noz nova é deliciosa
e é maravilhoso cambalear bêbado pelo bosque vespertino!
Entre galhos pretos, ressoam tristes sinos;
o orvalho te beija o rosto.

Emil Nolde: Autumn Evening (1924)


Foto borrada em Viena, capital da Áustria natal de Georg Trakl (7/24)



terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Drummond: Passagem do Ano



     Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) era um homem de temperamento reservado, discreto e meditativo – mas sabia compor versos que, encarando valentemente as agruras da condição humana, celebram a realidade em todas as suas dimensões.
     Ao findar deste emblemático 2024 – ano, por um lado, de memoráveis viagens, amizades novas e muita poesia, e, por outro, da continuação do extermínio de crianças palestinas, destrutivas tragédias climáticas e da reeleição de Donald Trump –, convém que nos lembremos das palavras de nosso poeta-maior: “O último dia do ano/ não é o último dia do tempo.” A vida continuará, e nós – que presente do acaso! – continuaremos com ela. Apesar de tudo, merecemos viver. E merecemos contemplar, como queria Drummond, o alvorecer de renovados tempos.


Passagem do Ano

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com
sinfonia e coral,
que o tempo cará
repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus…

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.


(n’A Rosa do Povo, de 1945)

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Cinquenta anos sem Nick Drake



     A morte de Nick Drake (1948-1974) completa, neste 25 de novembro de 2024, cinquenta anos.
     Nick Drake foi um dos músicos mais sensíveis que o século passado nos deu. Em suas canções, letras sublimes unem-se a hábeis melodias de violão, formando uma poesia de espécie rara, outonal e profundamente tocante.
     Embora tenha refinado o agudo modelo lírico estabelecido por Jackson C. Frank, Bert Jansch e Bob Dylan, Nick foi quase anônimo em seu tempo: seus três álbuns, Five Leaves Left (1969), Bryter Layter (1971) e Pink Moon (1972), contaram com péssimas vendas e ficaram reduzidos a um grupo bastante restrito de apreciadores – até porque, é preciso ter em mente, o poeta recusava-se a performar shows ou dar entrevistas para divulgá-los. Entre decepções artísticas, crises pessoais e momentos de lancinante tristeza, Nick renunciou à vida aos vinte e seis anos, deixando-nos a lamentar muito o seu cedo falecimento, mas, também, a estimar a Beleza incomparável de sua obra e de seu legado.
     É pena que não posso dizer-lhe o quão imensamente eu o admiro. Como poucos, Nick Drake é um valioso amigo que sempre me oferece luz em tempos escuros.
     A seguir, traduzo alguns trechos da parte final de Nick Drake: The Biography, por Patrick Humphries. Deixo, além disso, links para as suas canções de que mais gosto.


     He was prone to sleepless nights, frequently prowling the house in the small hours. His mother, alert to his movements, would often get up and sit with him in the kitchen until he returned to bed. But that night, when he woke and went down to the kitchen, Molly slept on. No one will ever know what thoughts went through his mind in the long and solitary, dark hours before dawn. Sometime on the morning of Monday 25 November 1974 – probably around 6a.m. – the extra Tryptizol he had taken that night caused his heart to stop beating.
     That Nick Drake died so young is a terrible tragedy; not just because of who he was, but because of what he might have become. The potential of all those years left unlived. He was a man of sincerity, an artist of tremendous calibre and one of the few entitled to be called unique. The fact that there is no film footage of him performing undoubtedly feeds the myth. The photos – and there are few enough even of those – freeze-frame the image of Nick, shy and hesitant before the camera, capturing him for ever in the aspic of immortality: half-smiling at halfremembered memories.
     How Nick’s life would have developed had he lived, is of course the question which continues to fascinate those who have grown to love his music. If he had conquered his depression, would he have wanted to write and record again? Would he ever have felt capable of returning to his former life? Indeed is it possible to imagine a life for Nick which didn’t involve music?
     It is fascinating, but fruitless to speculate. We will never know. Even those closest to him could never know. It seems likely that not even he knew. In the end, though, Nick Drake was born, and died, the way he was. The sadness and introspection gave birth to the music. Had he been less contemplative, it is unlikely that he would have produced such inimitable music. And music was very important to him.
     Any valour and heroism in Nick’s all-too-short life came in the courage of his living. It can be seen in his proud but foolhardy determination to try to beat his illness on his own, and in the will to go back and record even after he had apparently given up hope and retreated to Tanworth. It came in the day-to-day battles with despair, the acceptance of a life unfulfilled and empty, and the continued, weary living of that life.
     But no life worth the name is ever that simple, and even the brief life of Nick Drake abounds with contradictions: the boy who seemed to personify the corrosive effects of loneliness, though he never really left his parents’ home; who found communication such an effort, but reached out so fluently, to so many, through his work. Perhaps in the end facts can only diminish the myth, but ultimately the life is more important. For whatever the truth about Nick Drake’s death, it remains a tragedy – just as his legacy of extraordinary songs remains a triumph, and a joyful one at that.

     –
     Nick era propenso a noites em claro, frequentemente perambulando pela casa durante a madrugada. Muitas vezes, sua mãe, atenta aos seus movimentos do filho, levantava-se e se sentava com ele na cozinha até que ele voltasse para a cama. Mas, naquela noite, quando Nick acordou, ela continuou dormindo.
     Ninguém jamais saberá que pensamentos passaram por sua mente nas longas, solitárias horas de escuridão antes da alvorada. Em algum momento da manhã de segunda-feira, 25 de novembro de 1974, provavelmente por volta das 6h, o Tryptizol extra que Nick havia tomado lhe parou o coração.
     Que Nick Drake tenha morrido tão jovem é uma tragédia terrível – não apenas por quem ele foi, mas por aquilo que ele poderia ter sido, por todo o potencial dos anos não vividos. Nick era alguém de profunda sinceridade, um artista de calibre excepcional e um dos poucos que realmente merecem ser considerados únicos. Certamente, a ausência de qualquer filmagem em que ele se apresente alimenta o mito. As fotografias – e mesmo elas são raras – guardam a imagem de Nick, tímido e hesitante diante da câmera, preservando-o para sempre na moldura imutável da imortalidade: um meio-sorriso evocando memórias meio esquecidas.
     Como a vida de Nick teria sido se ele houvesse sobrevivido é uma questão que continua cativando aqueles que aprenderam a amar sua música. Se tivesse superado a depressão, será que desejaria voltar a compor e gravar? Será que algum dia se sentiria capaz de retornar à sua antiga vida? É possível, afinal, imaginar uma existência para Nick que não estivesse entrelaçada com a música?
     É uma especulação fascinante, mas inútil. Nós nunca saberemos. Aqueles mais íntimos dele não sabiam. Parece que nem sequer o próprio Nick sabia. No fim, porém, Nick Drake nasceu e morreu como ele era. A tristeza e a introspecção deram origem à sua música. Tivesse ele sido menos contemplativo, é improvável que produzisse uma obra musical tão inimitável. E música era algo muito importante para Nick.
     O verdadeiro heroísmo da breve existência de Nick está em sua coragem de existir. Está em sua tolamente orgulhosa determinação de vencer sozinho a doença que o abatia. Está em sua perseverança em retornar a gravar canções mesmo tendo aparentemente desistido de tudo e se refugiado na casa de seus pais, em Tanworth. Está em suas lutas diárias contra a desesperança. Está em aceitar uma vida incompleta e vazia – e, não obstante, em continuar a viver a vida.
     Ainda assim, nenhuma vida que valha a pena é tão simples, e até mesmo a de Nick guarda contradições: o garoto que parecia personificar os efeitos corrosivos da solidão nunca realmente saiu da casa dos pais; o poeta que sentia uma dificuldade tremenda de exercer a comunicação foi capaz de comunicar-se tão fluentemente com tantas pessoas por meio de seus versos. Talvez os fatos possam diminuir o mito, mas, no final das contas, a vida é mais importante. Seja qual for a verdade sobre a morte de Nick Drake, ela continua sendo uma tragédia – assim como o seu legado de músicas extraordinárias continua sendo um triunfo, um triunfo que celebramos com alegria.


     The Thoughts of Mary Jane: https://music.youtube.com/watch?v=XpR_OdvyRNI&si=TP7TuqsDZIroI-_l;
     Fly: https://music.youtube.com/watch?v=aCCn2Mal5mM&si=8wdjbKYR6PiHlf3T;
     Road: https://music.youtube.com/watch?v=jpk32L8Bb4c&si=Ow6EwPOf1PiZL0dR;
     Things Behind the Sun: https://music.youtube.com/watch?v=j14PgxHghjQ&si=gyNDMQPhsjF4X0cP;
     From the Morning: https://music.youtube.com/watch?v=xPe5ZQx0OpQ&si=bY_AYIWF_LAY1J34;
     Rider on the Wheel: https://music.youtube.com/watch?v=54zfEaaHURM&si=Au_WN2fsDChzS0BR (presente em um álbum póstumo, Made To Love Magic, de 2004).


Túmulo do poeta em Tanworth-in-Arden, inscrito com versos de From the Morning

Noite em Londres, cidade que o poeta costumava frequentar (3/24)

domingo, 10 de novembro de 2024

Louise Glück: O Triunfo de Aquiles

 


     Louise Glück (1943-2023), que nos deixou no ano passado, produziu uma lírica de extraordinária sensibilidade. Não é à toa que, agraciada com láureas diversas, a poeta pôde fruir a gratidão de apaixonados leitores pelos mais distintos países – entre os quais, embora tardiamente, está o Brasil.
     Os inesgotáveis versos de Homero são uma fonte de que sua obra constantemente bebe. No poema a seguir, de 1985, Glück volta-se a um dos mais tocantes episódios da Ilíada (Canto XVIII) para explorar a vulnerabilidade inescapável da trágica condição humana – e, ao mesmo tempo, trazer à luz a Beleza que emana dessa condição. 
     Se o aspecto divino de Aquiles o torna o guerreiro mais poderoso, temido e invejado entre os gregos, é sua humanidade que verdadeiramente atravessa os milênios e ainda nos emociona. Quando morre Pátroclo, seu melhor amigo – e possível amante –, a tristeza que lacera o coração do herói é tão profunda, que os deuses percebem-no “um homem já falecido”. Não obstante todas as vitórias, espólios e láureas da glória, Aquiles chorou: nem mesmo o maior dos mortais pode escapar da dor de ser humano.
     É possível, então, enxergarmos a mortalidade como um tipo de maldição. Mas Glück inverte as perspectivas: é apenas em nossa finitude que podemos, verdadeiramente, sentir, sofrer e amar. Os deuses, invulneráveis aos infortúnios que tanto nos afligem, são, por definição, incapazes da nobreza em atos de coragem, altruísmo e, neste caso, de amor. Ao fim e ao cabo, Aquiles personifica essa verdade: Aquiles não triunfa por gozar da fama, possuir riquezas ou vencer Heitor; Aquiles triunfa porque sabe ser excessivamente humano – porque sente, porque sofre e, acima de tudo, porque ama.


The Triumph of Achilles

In the story of Patroclus
no one survives, not even Achilles
who was nearly a god.
Patroclus resembled him; they wore
the same armor.

Always in these friendships
one serves the other, one is less than the other:
the hierarchy
is always apparent, though the legends
cannot be trusted—
their source is the survivor,
the one who has been abandoned.

What were the Greek ships on fire
compared to this loss?

In his tent, Achilles
grieved with his whole being
and the gods saw

he was a man already dead, a victim
of the part that loved,
the part that was mortal.


O Triunfo de Aquiles

Na lenda de Pátroclo,
ninguém sobrevive, nem mesmo Aquiles,
que era quase um deus.
Pátroclo parecia-se com ele: ambos trajavam
a mesma armadura.

Em amizades assim, um
sempre serve ao outro, um é menos do que o outro:
a hierarquia
fica sempre clara, embora as lendas
não sejam confiáveis –
sua fonte é aquele que sobreviveu,
aquele que foi abandonado.

O que os navios em chamas eram
comparados com essa perda?

Em sua tenda, Aquiles
sofria de todo o ser – 
e os deuses viram

que ele era um homem já falecido, uma vítima
da parte que amava,
a parte que era mortal.


Relíquia que retrata Aquiles curando as feridas de Pátroclo em Tróia (Altes Museum, Berlim, 7/24)

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Heráclito de Éfeso: dialética e poesia


Etienne Parrocel, Portrait du Philosophe Héraclite

     Solitário membro de uma estirpe gregária, Heráclito de Éfeso (aprox. 500 a.C.) parece não ter contado com discípulos ou associados pessoais. Em uma época que consideramos ainda fundamentalmente oral, sua influência exerceu-se quase apenas por meio do poder da palavra escrita, produzindo, dentro de uma ou duas gerações, alguns convictos seguidores, os “heracliteanos”.
     Como toda prosa antes de Heródoto e toda filosofia antes de Platão, as linhas originais de Heráclito se perderam. Para acessá-las, nós dependemos inteiramente de citações, paráfrases e relatos posteriores que tenham sobrevivido ao declínio da civilização antiga. A unidade intelectual de sua composição, contudo, permanece evidente nos fragmentos que nos restam: o tema central do pensamento de Heráclito consiste em afirmar diretamente a própria confluência de opostos. Não deixamos de notar pontos de contato com o zoroastrismo, com os Upanishads, com o Tao – e, em tempos mais modernos, com as ideias de Schopenhauer, de Emerson e de Nietzsche.
     Heráclito não é apenas um filósofo, mas, também, um poeta – um poeta que escolheu falar-nos em tons crípticos, metafóricos e proféticos. Hoje, celebramos suas linhas belas e inovadoras: o pensador de Éfeso foi o primeiro a descobrir, aceitar e amar a permanência na mudança, a ordem no paradoxo, a harmonia no caos. “Deus”, Heráclito nos ensina, é “dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, saciedade e fome” – ou seja: coisas que nos podem parecer contrárias, inimigas e inconciliáveis são, na verdade, diferentes manifestações da mesma essência universal, eterna e misteriosa.
     A seguir, traduzo, do inglês (Charles H. Kahn, The Art and Thought of Heraclitus) e do meu deprimente grego, alguns de seus fragmentos que me são especialmente significativos.


     κόσµον, τὸν αὐτὸν ἁπάντων, οὔτε τις θεῶν, οὔτε ἀνθρώπων ἐποίησεν, ἀλλ' ἦν ἀεὶ καὶ ἔστιν καὶ ἔσται πῦρ ἀείζωον, ἁπτόµενον µέτρα καὶ ἀποσϐεννύµενον µέτρα. 
     The ordering, the same for all, no god nor man has made, but it ever was and is and will be: fire everliving, kindled in measures and in measures going out.
     A essência universal, que rege igualmente a tudo quanto existe, não nasceu de qualquer deus ou de qualquer homem, mas sempre foi, é e será: fogo eterno, acendendo-se e apagando-se em constante ritmo.

*

     οὐδὲ θνητῆς οὐσίας δὶς ἅφασθαι κατὰ ἕξιν· ἀλλ΄ὀξύτητι καὶ τάχει µεταϐολῆς σκίδνησι καὶ πάλιν συνάγει καὶ πρόσεισι καὶ ἄπεισι. 
 –
     One cannot step twice into the same river, nor can one grasp any mortal substance in a stable condition, but it scatters and again gathers; it forms and dissolves, and approaches and departs.
     Ninguém pode pisar duas vezes o mesmo rio; ninguém pode apreender a qualquer substância mortal em condições estáveis: todas as coisas se fragmentam e se recompõem, formam-se e se dissolvem, vêm e vão.

*

     ὁ ἥλιος νέος ἐφ' ἡµέρῃ ἐστίν
     The sun is new every day
     O sol é novo a cada dia

*

     τὸ φρονεῖν ἀρετὴ µεγίστη, καὶ σοφίη ἀληθέα λέγειν καὶ ποιεῖν κατὰ φύσιν ἐπαΐοντας. 
     Thinking well is the greatest excellence and wisdom: to act and speak what is true, perceiving things according to their nature.
     Pensar corretamente é a mais sábia das excelências: dizer aquilo que é verdade e agir de acordo com a verdade, compreendendo as coisas conforme a sua natureza.

*

     ἦθος ἀνθρώπῳ δαίµων
     Man’s character is his fate.
     O nosso caráter é o nosso destino.

*

     ἀνθρώποις γίνεσθαι ὁκόσα θέλουσιν οὐκ ἄµεινον. νοῦσος ὑγιείην ἐποίησεν ἡδὺ, κακὸν ἀγαθόν, λιµὸς κόρον, κάµατος ἀνάπαυσιν. 
     It is not better for human beings to get all they want. It is disease that makes health sweet and good, hunger satiety, weariness rest.
     Não convém que tenhamos tudo aquilo que queremos. É a doença que torna a doce saúde valiosa; fome, saciedade; fadiga, descanso.

*

     χρυσὸν γὰρ οἱ διζήµενοι γῆν πολλὴν ὀρύσσουσι καὶ εὑρίσκουσιν ὀλίγον. 
     Seekers of gold dig up much earth and find little.
     Aqueles que buscam ouro hão de cavar muita terra e encontrar pouco.

*

     κακοὶ µάρτυρες ἀνθρώποισιν ὀφθαλµοὶ καὶ ὦτα βαρϐάρους ψυχὰς ἐχόντων. 
     Eyes and ears are poor witnesses for men if they have barbarian souls.
     Olhos e ouvidos são precários instrumentos para homens de almas bárbaras.

*

     τίς γὰρ αὐτῶν νόος ἢ φρήν; δήµων ἀοιδοῖσι πείθονται καὶ διδασκάλῳ χρείωνται ὁµίλῳ οὐκ εἰδότες ὅτι οἱ πολλοὶ κακοί, ὀλίγοι δὲ ἀγαθοί . 
     What wit or understanding do they have? They believe the poets of the people and take the mob as their teacher, not knowing that the many are worthless, good men are few.
     Que inteligência ou sabedoria eles têm? Eles deixam-se instruir pelos cantores do populacho e tomam as massas por mestres, jamais entendendo que os muitos são descartáveis: homens valiosos são poucos.

*

     τῷ µὲν θεῷ καλά πάντα καὶ ἀγαθὰ καὶ δὶκαια, ἄνθρωποι δὲ ἅ µὲν ἄδικα ὑπειλήφασιν ἃ δὲ δίκαια. 
     For god all things are fair and good and just, but men have taken some things as unjust, others as just.
     Para deus, todas as coisas são belas, boas e justas, mas os homens tomam algumas por justas e outras, por injustas.

*

     ὁ θεὸς ἡµέρη εὐφρόνη, χειµὼν θέρος, πόλεµος εἰρήνη, κόρος λιµός, ἀλλοιοῦται δὲ ὅκωσπερ, ὁπόταν συµµιγῇ θυώµασιν ὀνοµάζεται καθ΄ ἡδονὴν ἑκάστου. 
     The god: day and night, winter and summer, war and peace, satiety and hunger. It alters, as when mingled with perfumes, it gets named according to the pleasure of each one.
     Deus: dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, saciedade e fome. Ele se altera – como alteram-se distintos odores quando os mesclamos – e recebe diferentes nomes de acordo com cada um.

*

     ὁδὸς ἄνω κάτω µία καὶ ὡυτή. 
     The way up and down is one and the same.
     O caminho para cima e o caminho para baixo são o mesmo.

*

     συνάψιες ὅλα καὶ οὐχ ὅλα, συµφερόµενον διαφερόµενον, συνᾷδον διᾷδον, καὶ ἐκ πάντων ἓν καὶ ἐξ ἑνὸς πάντα. 
     Graspings: wholes and not wholes, convergent divergent, consonant dissonant, from all things one and from one thing all.
     Fagulhas de compreensão: totalidades e fragmentos, divergente convergente, dissonante consonante – de tudo, um; de um, tudo.

No Vaticano, a famosa Escola de Atenas, de Rafael, retrata Heráclito (de túnica lilás) sentado ao pé da escada, meditando alheio aos demais. (Roma, 7/24)

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Safo de Lesbos: alguns fragmentos


Sappho Inspired by Love, de Angelica Kauffman (1775)

Dos nove livros que Safo de Lesbos (630-570 a.C.) provavelmente compôs, apenas um poema sobrevive por completo; todo o resto consiste em fragmentos preservados em papiros e citações. Quanto à sua figura, a Encyclopedia of the Ancient Greek World diz:

Os únicos fatos confiáveis sobre a vida de Safo são aqueles que podem ser extraídos de seus versos. Safo nasceu em família aristocrática de Mitilene e, embora sua poesia não trate da política, ela aparentemente compartilhava os privilégios e agouros da vida das classes altas. (...) Escritores da posteridade dizem que Safo se casou – como era costume entre as mulheres de sua condição – e nós sabemos que ela teve uma filha, Cleïs.
Em nossa modernidade de sexo comercializado e política sexualizada, é necessário esforço para imaginar o mundo de Safo. Apesar de ela haver sido apropriada como precursora do feminismo desde os anos 70, seus poemas dão voz a uma mulher de honesto coração aberto a habitar uma ilha privada de emoções, completamente removida de grandes preocupações sociais. 
(págs. 301-302)

Embora Safo tenha tratado vividamente das múltiplas faces do sentimento erótico, portanto, seria um equívoco pensarmos que sua poesia não sai das fronteiras do amor: nos fragmentos que nos restam, o eu lírico sáfico se recorda, contempla, sofre, medita, louva, limita-se, anseia e demonstra claridade de linguagem, originalidade de imagens e intensidade de emoções como poucos poetas da antiguidade.
A seguir, traduzo, do irreverente inglês de Anne Carson (If Not, Winter, 2002) e do péssimo grego que sei, alguns versos sáficos que me são particularmente tocantes.


Fr. 24A

]ανάγα̣[
] . [ ]εμνάσεσθ᾿ ἀ[
κ]αὶ γὰρ ἄμμες ἐν νεό[τατι
ταῦ̣τ̣᾿ [ἐ]πόημμεν·
πό̣λ̣λ̣α̣ [μ]ὲν γὰρ καὶ κά[λα
. . . η̣ . [ ]μεν, πολι[
ἂμμε̣[ . ]ὀ[ξ]είαις δ̣[
. ] . . [ . ] . . [
]
]you will remember
]for we in our youth
did these things

yes many and beautiful things
]
]
]
]
]tu te recordarás
]pois em nossa juventude
nós fizemos coisas assim

sim coisas muitas e belas
]
]
]

*

Fr. 34

ἄστερες μὲν ἀμφὶ κάλαν σελάνναν
ἂψ ἀπυκρύπτοισι φάεννον εἶδος
ὄπποτα πλήθοισα μάλιστα λάμπη
γᾶν

ἀργυρία 
stars around the beautiful moon
hide back their luminous form
whenever all full she shines
on the earth

silvery 
estrelas ao redor da linda lua
escondem seu brilho
quando ela fulgura cheia
sobre a terra

prateada

*

Fr. 38

ὄπταις ἄμμε 
you burn me 
tu me queimas

*

Fr. 42

ταῖσι ψῦχρος μὲν ἔγεντ᾿ ὀ θῦμος,
πὰρ δ᾿ ἴεισι τὰ πτέρα
their heart grew cold
they let their wings down 
seu coração esfriou:
suas asas não mais voam

*

Fr. 50

ὀ μὲν γὰρ κάλος ὄσσον ἴδην πέλεται <κάλος>͵
ὀ δὲ κἄγαθος αὔτικα καὶ κάλος ἔσσεται.
For the man who is beautiful is beautiful to see 
but the good man will at once also beautiful be. 
O homem belo é belo de se olhar,
mas o bom será belo quando bom se revelar.

*

Fr. 52

ψαύην δ᾿ οὐ δοκίμωμ᾿ ὀράνω †δυσπαχέα†

I would not think to touch the sky with two arms 
Eu nunca pensaria em tocar no céu com os dois braços 

*

Frs. 74A, 74B, 74C

]ων ἔκα[
]αιπόλ[
]μ.[
]βροδο[
]ο̣νθ[
]φαιμ[

]α[
]ποθο̣[
].ώβα̣[

].[
]ας ἴδρω[
].υζ̣αδ.[
]ι̣ν[
] goatherd 
] roses 

] longing 

] sweat 
] pastor
] rosas

] anseio

] suor

Anne Carson (1950-), poeta, ensaísta e tradutora canadense

sábado, 31 de agosto de 2024

Upanishads: alguns trechos



Os Upanishads são poemas de conteúdo filosófico-religioso elaborados por autores anônimos em versos de distintos tamanhos, dos quais o mais velho foi provavelmente composto entre 800 e 400 a.C., na antiguidade védica. Em sânscrito, a palavra Upanishad significa, como um todo, o ato de sentar-se e escutar os ensinamentos do mestre. 

O que dá vida a estes milenares escritos é a compreensão de uma essência universal, eterna e transcendente. Se, para os poetas hindus, trata-se de Brahman, quer-nos parecer que outras tradições a descobriram através de nomes variados: Heráclito a conhece como Logos; o judeu cabalista, como Ein Sof; Emerson, como a Supra-Alma. A menos que sejamos capazes de nutrir uma reverência superior a barreiras histórico-culturais, nomes serão palavras vazias.

Àquele que sinceramente cultiva a fé e abre o coração, a lição suprema dos Upanishads fica clara: Deus não reside em dogmas, liturgias ou em qualquer coisa distante, e sim no nosso interior mais profundo, na nossa capacidade de exercer a empatia, na nossa escolha de cultivar a disciplina necessária para senti-lo. “Em verdade”, diz-nos o Mundaka Upanishad, “quem ascende ao conhecimento de Deus torna-se Deus”.

A seguir, traduzo (do inglês) algumas linhas que me são particularmente significativas.



(Isa Upanishad)

Aquele que vê todos os seres em seu próprio Eu e seu próprio Eu em todos os seres perde qualquer medo.

*

(Katha Upanishad)

Quando o sábio serena a mente e contempla o nosso invisível Deus, que, superior ao tempo, reside no mistério das coisas e no coração dos homens, ele se eleva acima do prazer e da dor.

Quando o indivíduo escuta, compreende e, encontrando a essência, alcança o Interior, ele então descobre o júbilo na Fonte do júbilo.

[...]

Nem mesmo através de intensos estudos pode-se alcançar o Atman. Isso é possível apenas se o indivíduo abandona seus hábitos torpes e cultiva a calma nas percepções, concentração na mente e paz no coração.

Quem realmente sabe onde ele reside? Supremo, seu poder reduz ao pó sacerdotes e guerreiros – seu poder aniquila até mesmo a morte.

*

(Prasna Upanishad)

Em sonhos, a mente contempla a sua própria imensidão. Aquilo que foi visto é visto novamente; aquilo que foi ouvido é ouvido novamente. Aquilo que foi sentido em distintos lugares e remotas regiões retorna à mente mais uma vez. Visto e não visto, ouvido e não ouvido, sentido e não sentido, a mente contempla tudo, pois a mente é tudo.

*

(Mundaka Upanishad)

Assim como rios fluindo ao oceano encontram sua paz final e desaparecem em nome e forma, também o sábio se liberta de seu nome e forma e se adentra na radiância do Espírito Supremo, que é maior do que qualquer grandeza.

Em verdade, quem ascende ao conhecimento de Deus torna-se Deus.

*

(Svetasvatara Upanishad)

Neste gigante Ciclo da criação, que rege a vida e a morte de todas as coisas, a alma humana vagueia como uma ave em aflito voo e pensa que Deus está distante. Quando o amor de Deus a toca, porém, a alma humana encontra sua própria imortalidade.

Louvado em canções é Brahman. Nele, estão Deus, o mundo e a alma: Brahman é a eterna essência de tudo. Quando o indivíduo vê Brahman em toda a criação, ele encontra paz em Brahman e se liberta de todas as agruras.

Deus sustenta a unidade deste universo: o visível e o oculto, o transitório e o eterno. A alma do homem é prisioneira do prazer e da dor – mas, quando encontra Deus, ela se liberta de todos os grilhões.

Existe a alma do homem, permeada pela sabedoria e pela tolice, pelo poder e pela fraqueza; existe a natureza, Prakriti, que é a criação pelo bem da alma; e existe Deus, infinito, onipresente, que guarda toda a criação. Quando o indivíduo conhece os três, o indivíduo conhece Brahman.

A matéria se esvai com o tempo, mas Deus reside na Eternidade e governa tanto a matéria como a alma. Meditando sobre ele, contemplando-o, entrando em comunhão com ele, cessam as ilusões terrenas.

Quando o indivíduo conhece Deus, ele se torna livre: suas dores chegam ao fim, não lhe há mais nascimento e morte. Quando, em união interior, o indivíduo transcende o mundo corpóreo, ele encontra o terceiro mundo, o mundo do Espírito, onde o poder de Tudo está e o indivíduo tem tudo: pois ele é um com o Um.

Entende que Brahman reside eternamente em ti: nada maior há para ser entendido. Quando tu contemplas Deus, o mundo e a alma, tu contemplas os Três: tu contemplas Brahman.


--


(Isa Upanishad)

Who sees all beings in his own Self, and his own Self in all beings, loses all fear.

*

(Katha Upanishad)

When the wise rests his mind in contemplation on our God beyond time, who invisibly dwells in the mystery of things and in the heart of man, then he rises above pleasures and sorrow.

When a man has heard and has understood and, finding the essence, reaches the Inmost, then he finds joy in the Source of joy. Nachiketas is a house open for thy Atman, thy God.

(...)

Not even through deep knowledge can the Atman be reached, unless evil ways are abandoned, and there is rest in the senses, concentration in the mind and peace in one's heart.

Who knows in truth where he is? The majesty of his power carries away priests and warriors, and death itself is carried away.

*

(Prasna Upanishad)

And in dreams the mind beholds its own immensity. What has been seen is seen again, and what has been heard is heard again. What has been felt in different places or far- away regions returns to the mind again. Seen and unseen, heard and unheard, felt and not felt, the mind sees all, since the mind is all.

*

(Mundaka Upanishad)

As rivers flowing into the ocean find their final peace and their name and form disappear, even so the wise become free from name and form and enter into the radiance of the Supreme Spirit who is greater than all greatness.

In truth who knows God becomes God.

*

(Svetasvatara Upanishad)

In this vast Wheel of creation wherein all things live and die, wanders round the human soul like a swan in restless flying, and she thinks that God is afar. But when the love of God comes down upon her, then she finds her own immortal life.

Exalted in songs has been Brahman. In him are God and the world and the soul, and he is the imperishable supporter of all. When the seers of Brahman see him in all creation, they find peace in Brahman and are free from all sorrows.

God upholds the oneness of this universe: the seen and the unseen, the transient and the eternal. The soul of man is bound by pleasure and pain; but when she sees God she is free from all fetters.

There is the soul of man with wisdom and unwisdom, power and powerlessness; there is nature, Prakriti, which is creation for the sake of the soul; and there is God, infinite, omnipresent, who watches the work of creation. When a man knows the three he knows Brahman.

Matter in time passes away, but God is for ever in Eternity, and he rules both matter and soul. By meditation on him, by contemplation of him, and by communion with him, there comes in the end the destruction of earthly delusion.

When a man knows God, he is free: his sorrows have an end, and birth and death are no more. When in inner union he is beyond the world of the body, then the third world, the world of the Spirit, is found, where the power of the All is, and man has all: for he is one with the one.

Know that Brahman is for ever in thee, and nothing higher is there to be known. When one sees God and the world and the soul, one sees the Three: one sees Brahman.


(Tradução do sânscrito de Juan Mascaró)



Coleção de obras antigas e medievais retratando o Buda (Humboldt Forum, Berlim, 8/24)

Jorge Luis Borges: Two English Poems

  Jorge Luis Borges (1899-1986) é sempre uma referência: não sem motivo retornamos tão frequentemente aos seus escritos, pejados de uma erud...