terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Drummond: Passagem do Ano



     Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) era um homem de temperamento reservado, discreto e meditativo – mas sabia compor versos que, encarando valentemente as agruras da condição humana, celebram a realidade em todas as suas dimensões.
     Ao findar deste emblemático 2024 – ano, por um lado, de memoráveis viagens, amizades novas e muita poesia, e, por outro, da continuação do extermínio de crianças palestinas, destrutivas tragédias climáticas e da reeleição de Donald Trump –, convém que nos lembremos das palavras de nosso poeta-maior: “O último dia do ano/ não é o último dia do tempo.” A vida continuará, e nós – que presente do acaso! – continuaremos com ela. Apesar de tudo, merecemos viver. E merecemos contemplar, como queria Drummond, o alvorecer de renovados tempos.


Passagem do Ano

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com
sinfonia e coral,
que o tempo cará
repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus…

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.


(n’A Rosa do Povo, de 1945)

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Cinquenta anos sem Nick Drake



     A morte de Nick Drake (1948-1974) completa, neste 25 de novembro de 2024, cinquenta anos.
     Nick Drake foi um dos músicos mais sensíveis que o século passado nos deu. Em suas canções, letras belíssimas unem-se a hábeis melodias de violão, formando uma espécie de poesia rara, outonal e profundamente tocante.
     Embora tenha refinado o agudo modelo lírico estabelecido por Jackson C. Frank, Bert Jansch e Bob Dylan, Nick foi quase anônimo em seu tempo: seus três álbuns – Five Leaves Left (1969), Bryter Layter (1971) e Pink Moon (1972) – contaram com péssimas vendas e ficaram reduzidos a um grupo bastante restrito de apreciadores, até porque o poeta recusava-se a performar shows ou dar entrevistas para divulgá-los. Entre decepções artísticas, crises pessoais e momentos de lancinante tristeza, Nick renunciou à vida aos vinte e seis anos, deixando-nos a lamentar muito o seu cedo falecimento – mas, também, a estimar a Beleza incomparável de sua obra e de seu legado.
     É pena que não posso dizer-lhe o quão imensamente eu o admiro. Como poucos, Nick Drake é um valioso amigo que sempre me oferece luz em tempos escuros.
     A seguir, traduzo alguns trechos da parte final de Nick Drake: The Biography, por Patrick Humphries. Deixo, além disso, links para as suas canções de que mais gosto.


     Nick was prone to sleepless nights, frequently prowling the house in the small hours. His mother, alert to his movements, would often get up and sit with him in the kitchen until he returned to bed. But that night, when Nick woke and went down to the kitchen, Molly slept on. No one will ever know what thoughts went through Nick Drake’s mind in the long and solitary, dark hours before dawn. Sometime on the morning of Monday 25 November 1974 – probably around 6a.m. – the extra Tryptizol he had taken that night caused Nick Drake’s heart to stop beating.
     That Nick Drake died so young is a terrible tragedy; not just because of who he was, but because of what he might have become. The potential of all those years left unlived. Nick Drake was a man of sincerity, an artist of tremendous calibre and one of the few entitled to be called unique. The fact that there is no film footage of Nick Drake performing undoubtedly feeds the myth. The photos – and there are few enough even of those – freeze-frame the image of Nick, shy and hesitant before the camera, capturing him for ever in the aspic of immortality: half-smiling at halfremembered memories.
     How Nick’s life would have developed had he lived, is of course the question which continues to fascinate those who have grown to love his music. If he had conquered his depression, would he have wanted to write and record again? Would he ever have felt capable of returning to his former life? Indeed is it possible to imagine a life for Nick which didn’t involve music?
     It is fascinating, but fruitless to speculate. We will never know. Even those closest to him could never know. It seems likely that not even Nick knew. In the end, though, Nick Drake was born, and died, the way he was. The sadness and introspection gave birth to the music. Had he been less contemplative, it is unlikely that he would have produced such inimitable music. And music was very important to Nick.
     Any valour and heroism in Nick’s all-too-short life came in the courage of his living. It can be seen in his proud but foolhardy determination to try to beat his illness on his own, and in the will to go back and record even after he had apparently given up hope and retreated to Tanworth. It came in the day-to-day battles with despair, the acceptance of a life unfulfilled and empty, and the continued, weary living of that life.
     But no life worth the name is ever that simple, and even the brief life of Nick Drake abounds with contradictions: the boy who seemed to personify the corrosive effects of loneliness, though he never really left his parents’ home; who found communication such an effort, but reached out so fluently, to so many, through his work. Perhaps in the end facts can only diminish the myth, but ultimately the life is more important. For whatever the truth about Nick Drake’s death, it remains a tragedy – just as his legacy of extraordinary songs remains a triumph, and a joyful one at that.

     –
     Nick era propenso a noites em claro, frequentemente perambulando pela casa durante a madrugada. Muitas vezes, sua mãe, atenta aos seus movimentos do filho, levantava-se e se sentava com ele na cozinha até que ele voltasse para a cama. Mas, naquela noite, quando Nick acordou, ela continuou dormindo.
     Ninguém jamais saberá que pensamentos passaram por sua mente nas longas, solitárias horas de escuridão antes da alvorada. Em algum momento da manhã de segunda-feira, 25 de novembro de 1974, provavelmente por volta das 6h, o Tryptizol extra que Nick havia tomado lhe parou o coração.
     Que Nick Drake tenha morrido tão jovem é uma tragédia terrível – não apenas por quem ele foi, mas por aquilo que ele poderia ter sido, por todo o potencial dos anos não vividos. Nick era alguém de profunda sinceridade, um artista de calibre excepcional e um dos poucos que realmente merecem ser considerados únicos. Certamente, a ausência de qualquer filmagem em que ele se apresente alimenta o mito. As fotografias – e mesmo elas são raras – guardam a imagem de Nick, tímido e hesitante diante da câmera, preservando-o para sempre na moldura imutável da imortalidade: um meio-sorriso evocando memórias meio esquecidas.
     Como a vida de Nick teria sido se ele houvesse sobrevivido é uma questão que continua cativando aqueles que aprenderam a amar sua música. Se tivesse superado a depressão, será que desejaria voltar a compor e gravar? Será que algum dia se sentiria capaz de retornar à sua antiga vida? É possível, afinal, imaginar uma existência para Nick que não estivesse entrelaçada com a música?
     É uma especulação fascinante, mas inútil. Nós nunca saberemos. Aqueles mais íntimos dele não sabiam. Parece que nem sequer o próprio Nick sabia. No fim, porém, Nick Drake nasceu e morreu como ele era. A tristeza e a introspecção deram origem à sua música. Tivesse ele sido menos contemplativo, é improvável que produzisse uma obra musical tão inimitável. E música era algo muito importante para Nick.
     O verdadeiro heroísmo da breve existência de Nick está em sua coragem de existir. Está em sua tolamente orgulhosa determinação de vencer sozinho a doença que o abatia. Está em sua perseverança em retornar a gravar canções mesmo tendo aparentemente desistido de tudo e se refugiado na casa de seus pais, em Tanworth. Está em suas lutas diárias contra a desesperança. Está em aceitar uma vida incompleta e vazia – e, não obstante, em continuar a viver a vida.
     Ainda assim, nenhuma vida que valha a pena é tão simples, e até mesmo a de Nick guarda contradições: o garoto que parecia personificar os efeitos corrosivos da solidão nunca realmente saiu da casa dos pais; o poeta que sentia uma dificuldade tremenda de exercer a comunicação foi capaz de comunicar-se tão fluentemente com tantas pessoas por meio de seus versos. Talvez os fatos possam diminuir o mito, mas, no final das contas, a vida é mais importante. Seja qual for a verdade sobre a morte de Nick Drake, ela continua sendo uma tragédia – assim como o seu legado de músicas extraordinárias continua sendo um triunfo, um triunfo que celebramos com alegria.


     The Thoughts of Mary Jane: https://music.youtube.com/watch?v=XpR_OdvyRNI&si=TP7TuqsDZIroI-_l;
     Fly: https://music.youtube.com/watch?v=aCCn2Mal5mM&si=8wdjbKYR6PiHlf3T;
     Road: https://music.youtube.com/watch?v=jpk32L8Bb4c&si=Ow6EwPOf1PiZL0dR;
     Things Behind the Sun: https://music.youtube.com/watch?v=j14PgxHghjQ&si=gyNDMQPhsjF4X0cP;
     From the Morning: https://music.youtube.com/watch?v=xPe5ZQx0OpQ&si=bY_AYIWF_LAY1J34;
     Rider on the Wheel: https://music.youtube.com/watch?v=54zfEaaHURM&si=Au_WN2fsDChzS0BR (presente em um álbum póstumo, Made To Love Magic, de 2004).


Túmulo de poeta em Tanworth-in-Arden, inscrito com versos de From the Morning

Noite em Londres, cidade que o poeta costumava frequentar (3/24)

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Werner Jaeger: o ideal grego


     O alemão Werner Jaeger (1888-1961) foi um humanista tão arcaico quanto moderno: filólogo dedicado ao estudo dos textos clássicos, Jaeger defendia, em tempos de loucura nazista, que a grandeza do ser humano transcende critérios raciais e reside em sua capacidade de pensar sobre o mundo, de exercer a cultura, de contribuir para a civilização.
     Para o professor, é a alma, e não a etnia, aquilo que une o ocidental do presente ao grego da antiguidade. E é só através do cultivo de valores humanísticos que podemos descobrir, individualmente, os nossos próprios ideais de vida. Esses valores, ensina-nos Jaeger, encontram na antiga Grécia a sua expressão mais completa, refinada e nobre: “Outras nações fizeram deuses, reis, espíritos; só os gregos fizeram homens.”
     A cultura, portanto, vive, flui, altera-se – mas sua essência permanece imutável. Prova disto é o fato de uma Grécia derrotada ter, no fim, vencido: conquistados por Roma, os gregos foram o povo que os romanos mais imitaram. Cumpre-nos seguir o exemplo do humanista que, rejeitando a influência das massas de seu tempo, escolheu ser o indivíduo Werner Jaeger e buscar, por si próprio, um ideal de humanidade.
     A seguir, traduzo alguns breves excertos do início de sua magnum-opus, a indispensável Paideia: The Ideals of Greek Culture, nas palavras em inglês de Gilbert Highet.


     Every nation which has reached a certain stage of development is instinctively impelled to practice education. Education is the process by which a community preserves and transmits its physical and intellectual character. For the individual passes away, but the type remains.
     Greece is in a special category. From the point of view of the present day, the Greeks constitute a fundamental advance on the great peoples of the Orient, a new stage in the development of society. They established an entirely new set of principles for communal life. However highly we may value the artistic, religious, and political achievements of earlier nations, the history of what we can truly call civilization – the deliberate pursuit of an ideal – does not begin until Greece.
     Greece is much more than a mirror to reflect the civilization of today, or a symbol of our rationalistic consciousness of selfhood. The creation of any ideal is surrounded by all the secrecy and wonder of birth; and, with the increasing danger of degrading even the highest by daily use, men who realize the deeper values of the human spirit must turn more and more to the original forms in which it was first embodied, at the dawn of historical memory and creative genius.
     Man is the center of their thought. Their anthropomorphic gods; their concentration of the problem of depicting the human form in sculpture and even in painting; the logical sequence by which their philosophy moved from the problem of the cosmos to the problem of man, in which culminated with Socrates, Plato, and Aristotle; their poetry, whose inexhaustible theme from Homer throughout all the succeeding centuries is man, his destiny, and his gods; and finally their state, which cannot be understood unless viewed as the force which shaped man and man's life – all these are separate rays from one great light. They are the expressions of an anthropocentric attitude to life, which pervades everything felt, made, or thought by the Greeks. Other nations made gods, kings, spirits: the Greeks alone made men.
     But what is the ideal man? It is the universally valid model of humanity which all individuals are bound to imitate. The Greeks who lived at the beginning of the Roman empire were the first to describe the masterpieces of the great age of Greece as 'classical' in the timeless sense – partly as formal patterns for subsequent artists to imitate, partly as ethical models for posterity to follow. At that time, Greek history had become part of the life of the world-wide empire of Rome, the Greeks had ceased to be an independent nation, and the only higher ideal which they could still follow was the preservation and veneration of their own tradition.


     –

     Toda nação que atinge um certo estado de desenvolvimento é instintivamente impelida a praticar a educação. A educação consiste no processo através do qual uma comunidade preserva e transmite o seu carácter físico e intelectual. Porque o indivíduo passa, mas o tipo permanece.
     A Grécia pertence a uma categoria especial. Do ponto de vista atual, os gregos constituem um fundamental avanço em relação aos grandes povos do Oriente – uma nova etapa no desenvolvimento da sociedade. Eles estabeleceram um conjunto inteiramente novo de princípios à vida em comunidade. Por mais que valorizemos as realizações artísticas, religiosas e políticas das nações anteriores, a história daquilo a que podemos verdadeiramente chamar civilização – a busca deliberada de um ideal – não começa antes da Grécia.
     A Grécia é bem mais do que um espelho que reflete a sociedade de hoje ou um símbolo da nossa consciência racionalista do “eu”. A criação de qualquer ideal carrega o segredo e a maravilha do nascimento; e, diante do crescente perigo de a presente cultura de massas degradar até mesmo aquilo que é mais elevado, quem compreende os valores profundos do espírito humano deve voltar-se, cada vez mais, para as formas originais em que esses valores encarnaram-se: na aurora da memória histórica e do gênio criativo.
     O homem é o centro do pensamento grego. Seus deuses antropomórficos; seu engenho de representar a forma humana na escultura e na pintura; sua filosofia, que, em sequência lógica, passou do problema do cosmos para o problema do homem, culminando com Sócrates, Platão e Aristóteles; sua poesia, cujo tema inesgotável, desde Homero ao longo de todos os séculos seguintes, é o homem, o destino do homem e os deuses do homem; e, finalmente, seu Estado, que só pode ser compreendido se visto como a força que moldou o homem e a sua vida – todos estes são raios separados de uma grande luz, são expressões de uma atitude antropocêntrica em relação à vida que permeia tudo aquilo que é sentido, consumado ou pensado pelos gregos. Outras nações fizeram deuses, reis, espíritos; só os gregos fizeram homens.
     Mas o que é o homem ideal? É o modelo de humanidade universalmente válido em que todos os indivíduos devem inspirar-se. Os gregos vivendo no início do Império Romano foram os primeiros a descrever as obras-primas da grande época da Grécia como “clássicas” no sentido atemporal – em parte como padrões formais que os artistas subsequentes deveriam imitar, em parte como modelos éticos que a posteridade deveria seguir. Àquela altura, a história grega havia tornado-se parte da vida do império mundial de Roma, os gregos haviam deixado de ser uma nação independente e o único ideal superior que ainda podiam seguir era a preservação e a veneração da sua própria tradição.


 Erechtheion (Acrópole, Atenas, 9/24)

domingo, 10 de novembro de 2024

Louise Glück: O Triunfo de Aquiles

 


     Louise Glück (1943-2023), que nos deixou no ano passado, produziu uma lírica de extraordinária sensibilidade. Não é à toa que, agraciada com láureas diversas, a poeta pôde fruir a gratidão de apaixonados leitores pelos mais distintos países – entre os quais, embora tardiamente, está o Brasil.
     Os inesgotáveis versos de Homero são uma fonte de que sua obra constantemente bebe. No poema a seguir, de 1985, Glück volta-se a um dos mais tocantes episódios da Ilíada (Canto XVIII) para explorar a vulnerabilidade inescapável da trágica condição humana – e, ao mesmo tempo, trazer à luz a Beleza que emana dessa condição. 
     Se o aspecto divino de Aquiles o torna o guerreiro mais poderoso, temido e invejado entre os gregos, é sua humanidade que verdadeiramente atravessa os milênios e ainda nos emociona. Quando morre Pátroclo, seu melhor amigo – e possível amante –, a tristeza que lacera o coração do herói é tão profunda, que os deuses percebem-no “um homem já falecido”. Não obstante todas as vitórias, espólios e láureas da glória, Aquiles chorou: nem mesmo o maior dos mortais pode escapar da dor de ser humano.
     É possível, então, enxergarmos a mortalidade como um tipo de maldição. Mas Glück inverte as perspectivas: é apenas em nossa finitude que podemos, verdadeiramente, sentir, sofrer e amar. Os deuses, invulneráveis aos infortúnios que tanto nos afligem, são, por definição, incapazes da nobreza em atos de coragem, altruísmo e, neste caso, de amor. Ao fim e ao cabo, Aquiles personifica essa verdade: Aquiles não triunfa por gozar da fama, possuir riquezas ou vencer Heitor; Aquiles triunfa porque sabe ser excessivamente humano – porque sente, porque sofre e, acima de tudo, porque ama.


The Triumph of Achilles

In the story of Patroclus
no one survives, not even Achilles
who was nearly a god.
Patroclus resembled him; they wore
the same armor.

Always in these friendships
one serves the other, one is less than the other:
the hierarchy
is always apparent, though the legends
cannot be trusted—
their source is the survivor,
the one who has been abandoned.

What were the Greek ships on fire
compared to this loss?

In his tent, Achilles
grieved with his whole being
and the gods saw

he was a man already dead, a victim
of the part that loved,
the part that was mortal.


O Triunfo de Aquiles

Na lenda de Pátroclo,
ninguém sobrevive, nem mesmo Aquiles,
que era quase um deus.
Pátroclo parecia-se com ele: ambos trajavam
a mesma armadura.

Em amizades assim, um
sempre serve ao outro, um é menos do que o outro:
a hierarquia
fica sempre clara, embora as lendas
não sejam confiáveis –
sua fonte é aquele que sobreviveu,
aquele que foi abandonado.

O que os navios em chamas eram
comparados com essa perda?

Em sua tenda, Aquiles
sofria de todo o ser – 
e os deuses viram

que ele era um homem já falecido, uma vítima
da parte que amava,
a parte que era mortal.


Relíquia que retrata Aquiles curando as feridas de Pátroclo em Tróia (Altes Museum, Berlim, 7/24)

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Heráclito de Éfeso: dialética e poesia


Etienne Parrocel, Portrait du Philosophe Héraclite

     Solitário membro de uma estirpe gregária, Heráclito de Éfeso (aprox. 500 a.C.) parece não ter contado com discípulos ou associados pessoais. Em uma época que consideramos ainda fundamentalmente oral, sua influência exerceu-se quase apenas por meio do poder da palavra escrita, produzindo, dentro de uma ou duas gerações, alguns convictos seguidores, os “heracliteanos”.
     Como toda prosa antes de Heródoto e toda filosofia antes de Platão, as linhas originais de Heráclito se perderam. Para acessá-las, nós dependemos inteiramente de citações, paráfrases e relatos posteriores que tenham sobrevivido ao declínio da civilização antiga. A unidade intelectual de sua composição, contudo, permanece evidente nos fragmentos que nos restam: o tema central do pensamento de Heráclito consiste em afirmar diretamente a própria confluência de opostos. Não deixamos de notar pontos de contato com o zoroastrismo, com os Upanishads, com o Tao – e, em tempos mais modernos, com as ideias de Schopenhauer, de Emerson e de Nietzsche.
     Heráclito não é apenas um filósofo, mas, também, um poeta – um poeta que escolheu falar-nos em tons crípticos, metafóricos e proféticos. Hoje, celebramos suas linhas belas e inovadoras: o pensador de Éfeso foi o primeiro a descobrir, aceitar e amar a permanência na mudança, a ordem no paradoxo, a harmonia no caos. “Deus”, Heráclito nos ensina, é “dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, saciedade e fome” – ou seja: coisas que nos podem parecer contrárias, inimigas e inconciliáveis são, na verdade, diferentes manifestações da mesma essência universal, eterna e misteriosa.
     A seguir, traduzo, do inglês (Charles H. Kahn, The Art and Thought of Heraclitus) e do meu deprimente grego, alguns de seus fragmentos que me são especialmente significativos.


     κόσµον, τὸν αὐτὸν ἁπάντων, οὔτε τις θεῶν, οὔτε ἀνθρώπων ἐποίησεν, ἀλλ' ἦν ἀεὶ καὶ ἔστιν καὶ ἔσται πῦρ ἀείζωον, ἁπτόµενον µέτρα καὶ ἀποσϐεννύµενον µέτρα. 
     The ordering, the same for all, no god nor man has made, but it ever was and is and will be: fire everliving, kindled in measures and in measures going out.
     A essência universal, que rege igualmente a tudo quanto existe, não nasceu de qualquer deus ou de qualquer homem, mas sempre foi, é e será: fogo eterno, acendendo-se e apagando-se em constante ritmo.

*

     οὐδὲ θνητῆς οὐσίας δὶς ἅφασθαι κατὰ ἕξιν· ἀλλ΄ὀξύτητι καὶ τάχει µεταϐολῆς σκίδνησι καὶ πάλιν συνάγει καὶ πρόσεισι καὶ ἄπεισι. 
 –
     One cannot step twice into the same river, nor can one grasp any mortal substance in a stable condition, but it scatters and again gathers; it forms and dissolves, and approaches and departs.
     Ninguém pode pisar duas vezes o mesmo rio; ninguém pode apreender a qualquer substância mortal em condições estáveis: todas as coisas se fragmentam e se recompõem, formam-se e se dissolvem, vêm e vão.

*

     ὁ ἥλιος νέος ἐφ' ἡµέρῃ ἐστίν
     The sun is new every day
     O sol é novo a cada dia

*

     τὸ φρονεῖν ἀρετὴ µεγίστη, καὶ σοφίη ἀληθέα λέγειν καὶ ποιεῖν κατὰ φύσιν ἐπαΐοντας. 
     Thinking well is the greatest excellence and wisdom: to act and speak what is true, perceiving things according to their nature.
     Pensar corretamente é a mais sábia das excelências: dizer aquilo que é verdade e agir de acordo com a verdade, compreendendo as coisas conforme a sua natureza.

*

     ἦθος ἀνθρώπῳ δαίµων
     Man’s character is his fate.
     O nosso caráter é o nosso destino.

*

     ἀνθρώποις γίνεσθαι ὁκόσα θέλουσιν οὐκ ἄµεινον. νοῦσος ὑγιείην ἐποίησεν ἡδὺ, κακὸν ἀγαθόν, λιµὸς κόρον, κάµατος ἀνάπαυσιν. 
     It is not better for human beings to get all they want. It is disease that makes health sweet and good, hunger satiety, weariness rest.
     Não convém que tenhamos tudo aquilo que queremos. É a doença que torna a doce saúde valiosa; fome, saciedade; fadiga, descanso.

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     χρυσὸν γὰρ οἱ διζήµενοι γῆν πολλὴν ὀρύσσουσι καὶ εὑρίσκουσιν ὀλίγον. 
     Seekers of gold dig up much earth and find little.
     Aqueles que buscam ouro hão de cavar muita terra e encontrar pouco.

*

     κακοὶ µάρτυρες ἀνθρώποισιν ὀφθαλµοὶ καὶ ὦτα βαρϐάρους ψυχὰς ἐχόντων. 
     Eyes and ears are poor witnesses for men if they have barbarian souls.
     Olhos e ouvidos são precários instrumentos para homens de almas bárbaras.

*

     τίς γὰρ αὐτῶν νόος ἢ φρήν; δήµων ἀοιδοῖσι πείθονται καὶ διδασκάλῳ χρείωνται ὁµίλῳ οὐκ εἰδότες ὅτι οἱ πολλοὶ κακοί, ὀλίγοι δὲ ἀγαθοί . 
     What wit or understanding do they have? They believe the poets of the people and take the mob as their teacher, not knowing that the many are worthless, good men are few.
     Que inteligência ou sabedoria eles têm? Eles deixam-se instruir pelos cantores do populacho e tomam as massas por mestres, jamais entendendo que os muitos são descartáveis: homens valiosos são poucos.

*

     τῷ µὲν θεῷ καλά πάντα καὶ ἀγαθὰ καὶ δὶκαια, ἄνθρωποι δὲ ἅ µὲν ἄδικα ὑπειλήφασιν ἃ δὲ δίκαια. 
     For god all things are fair and good and just, but men have taken some things as unjust, others as just.
     Para deus, todas as coisas são belas, boas e justas, mas os homens tomam algumas por justas e outras, por injustas.

*

     ὁ θεὸς ἡµέρη εὐφρόνη, χειµὼν θέρος, πόλεµος εἰρήνη, κόρος λιµός, ἀλλοιοῦται δὲ ὅκωσπερ, ὁπόταν συµµιγῇ θυώµασιν ὀνοµάζεται καθ΄ ἡδονὴν ἑκάστου. 
     The god: day and night, winter and summer, war and peace, satiety and hunger. It alters, as when mingled with perfumes, it gets named according to the pleasure of each one.
     Deus: dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, saciedade e fome. Ele se altera – como alteram-se distintos odores quando os mesclamos – e recebe diferentes nomes de acordo com cada um.

*

     ὁδὸς ἄνω κάτω µία καὶ ὡυτή. 
     The way up and down is one and the same.
     O caminho para cima e o caminho para baixo são o mesmo.

*

     συνάψιες ὅλα καὶ οὐχ ὅλα, συµφερόµενον διαφερόµενον, συνᾷδον διᾷδον, καὶ ἐκ πάντων ἓν καὶ ἐξ ἑνὸς πάντα. 
     Graspings: wholes and not wholes, convergent divergent, consonant dissonant, from all things one and from one thing all.
     Fagulhas de compreensão: totalidades e fragmentos, divergente convergente, dissonante consonante – de tudo, um; de um, tudo.

No Vaticano, a famosa Escola de Atenas, de Rafael, retrata Heráclito (de túnica lilás) sentado ao pé da escada, meditando alheio aos demais. (Roma, 7/24)

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Friedrich Nietzsche: O Nascimento da Tragédia



     Friedrich Nietzsche (1844-1900), que comemoraria seu aniversário hoje, foi, antes de tudo, um revolucionário, um libertador, um poeta-filósofo capaz de venerar a vida terrena, entendendo a arte como a suprema atividade metafísica de nossa existência. Ao contrário de tantos intelectuais pretensiosos, Nietzsche nunca buscou sistematizar a realidade em torno de uma concepção fácil: seus escritos comunicam verdades profundas apenas aos irreverentes espíritos que enxergam além das dualidades, pensam além das convenções, sentem além da razão.
     Naturalmente, é na bela civilização grega que o filólogo classicista encontra uma fonte incomparável de nobreza artística, sensibilidade humana e inspiração para viver. Seu primeiro livro, The Birth of Tragedy (O Nascimento da Tragédia), propõe-se a perscrutar as origens do impressionante drama ático, que se desenvolveu a partir de um conjunto de manifestações religiosas para, no fim, declinar sob a influência da racionalidade socrático-platônica. Quanto à gênese profunda da fé entre os helênicos, Nietzsche nos oferece uma das explicações que mais me parecem elegantes: “Os deuses”, diz-nos ele, “justificam a vida dos homens porque eles próprios a vivem” – de fato, no refinado entendimento grego, as divindades, como nós, também sorriem, também choram, também se deleitam, também sofrem.
     Inspirado pela visão de mundo pessimista de Schopenhauer e pela agudíssima música de Wagner, o pensador defendeu a regeneração da cultura moderna através do redescobrimento da poesia antiga. Nietzsche compreendia, afinal, que os gregos são os que mais podem ensinar-nos a enfrentar a realidade desapaixonada, burocrática e cinzenta de nossos tempos – Nietzsche compreendia os gregos por aquilo que eles verdadeiramente foram: um povo profundamente sensível, valente e feliz.
     A seguir, traduzo (do inglês) alguns trechos que me são particularmente significativos.


   Music and tragedy? Greeks and the music of tragedy? Greeks and the pessimistic art form? The most accomplished, most beautiful, most universally envied race of mankind, those most capable of seducing us into life — they were the ones who needed tragedy? Or even more — art? What for? Is it perhaps possible to suffer from over abundance? A tempting and challenging, sharp-eyed courage that craves the terrible as one craves the enemy, the worthy enemy, against whom it can test its strength? Wishing to learn from it the meaning of ‘fear’? What is the meaning, for those Greeks of the best, strongest, most courageous age, of the tragic myth? And of the tremendous phenomenon of the Dionysiac? And of the tragedy that was born from it?
   The Greeks knew and felt the fears and horrors of existence: in order to be able to live at all they had to interpose the radiant dream-birth of the Olympians between themselves and those horrors. How else could life have been borne by a race so sensitive, so impetuous in its desires, so uniquely capable of suffering, if it had not been revealed to them, haloed in a higher glory, in their gods? The same impulse that calls art into existence, the complement and apotheosis of existence, also created the Olympian world with which the Hellenic ‘will’ held up a transfiguring mirror to itself. Thus the gods provide a justification for the life of man by living it themselves — the only satisfactory form of theodicy!
   Anyone who approaches these Olympians with a different religion in his heart, seeking elevated morals, even sanctity, ethereal spirituality, charity and mercy, will quickly be forced to turn his back upon them, discouraged and disappointed. Nothing here suggests asceticism, spirituality or duty — everything speaks of a rich and triumphant existence, in which everything is deified, whether it be good or evil. And thus the onlooker may be disquieted by this fantastic exuberance of life, wondering what magic potion these boisterous men must have drunk to enjoy life so much that, whichever way they look, Helen, ‘floating in sweet sensuality’, the ideal image of their own existence, smiles back at them.
   Singing and dancing, man expresses himself as a member of a higher community: he has forgotten how to walk and talk, and is about to fly dancing into the heavens. His gestures express enchantment. Just as the animals now speak, and the earth yields up milk and honey, he now gives voice to supernatural sounds: he feels like a god, he himself now walks about enraptured and elated as he saw the gods walk in dreams. Man is no longer an artist, he has become a work of art: the artistic power of the whole of nature reveals itself to the supreme gratification of the primal Oneness amidst the paroxysms of intoxication.

(Traduzido do alemão por Walter Kaufmann)

– 

   Música e tragédia? Gregos e a música da tragédia? Gregos e a arte pessimista? Os humanos da raça mais realizada, bela, invejada e capaz de nos inspirar a viver – eram eles os que sentiam a necessidade da tragédia? Ou, ainda mais, da arte? Por quê? Será possível sofrer de excesso? De uma coragem tentadora e intrépida que desafia o terrível tal como o guerreiro busca o inimigo, o inimigo digno, contra quem pode pôr sua força à prova? Desejando, assim, aprender o significado do medo? E qual é o significado, para os gregos pertencentes à melhor, à mais forte, à mais corajosa era, do mito trágico? E do tremendo fenômeno dionisíaco? E da tragédia que nasceu desse fenômeno?
   Os gregos conheciam e sentiam os medos, os horrores da existência: para viverem, eles tinham de interpor a radiância dos deuses olímpicos entre sua própria realidade e esses horrores. De que outra maneira poderia a vida ser tolerada por homens tão sensíveis, tão intensos em seus desejos, tão singularmente capazes de sofrer, se ela não lhes tivesse sido revelada, aureolada em uma glória maior, através de seus deuses? O mesmo impulso que chama a arte à existência, o complemento e a apoteose da existência, também criou o mundo olímpico com o qual o vigor helênico ergueu um espelho transfigurador para si mesmo. Os deuses, então, justificam a vida dos homens porque eles próprios a vivem – a única forma satisfatória de teodiceia!
   Qualquer um que se aproxime destes olímpicos com uma religião diferente no coração, buscando uma moral elevada, até mesmo santidade, espiritualidade etérea, caridade e misericórdia será rapidamente forçado a dar as costas a eles, desanimado e decepcionado. Nada aqui sugere ascetismo, espiritualidade ou dever – tudo fala de uma existência rica e triunfante, na qual todas as coisas são deificadas, boas ou más. E, assim, é possível que fiquemos inquietos com essa fantástica exuberância da vida, perguntando-nos que mágica poção esses homens turbulentos beberam para aproveitar tanto a vida, de modo que, para onde quer que olhem, Helena – “flutuando em doce sensualidade”, a imagem ideal de sua própria existência – sorri-lhes de volta.
   Cantando e dançando, o homem se expressa enquanto membro de uma comunidade superior: ele se esqueceu de como andar e falar e está prestes a voar dançando para os céus. Seus gestos expressam encantamento. Da mesma maneira que os animais agora falam e a terra produz leite e mel, o homem passa a dar voz a sons sobrenaturais: ele se sente um deus, caminhando extasiado e exultante tal como via os deuses caminharem em seus sonhos. O homem não é mais um artista – ele se tornou uma obra de arte: o poder artístico de toda a natureza se revela para a suprema gratificação da Unidade Primordial em meio aos paroxismos intoxicados.

Entardecer na Acrópole (Atenas, 10/24)

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Safo de Lesbos: alguns fragmentos


Sappho Inspired by Love, de Angelica Kauffman (1775)

Dos nove livros que Safo de Lesbos (630-570 a.C.) provavelmente compôs, apenas um poema sobrevive por completo; todo o resto consiste em fragmentos preservados em papiros e citações. Quanto à sua figura, a Encyclopedia of the Ancient Greek World diz:

Os únicos fatos confiáveis sobre a vida de Safo são aqueles que podem ser extraídos de seus versos. Safo nasceu em família aristocrática de Mitilene e, embora sua poesia não trate da política, ela aparentemente compartilhava os privilégios e agouros da vida das classes altas. (...) Escritores da posteridade dizem que Safo se casou – como era costume entre as mulheres de sua condição – e nós sabemos que ela teve uma filha, Cleïs.
Em nossa modernidade de sexo comercializado e política sexualizada, é necessário esforço para imaginar o mundo de Safo. Apesar de ela haver sido apropriada como precursora do feminismo desde os anos 70, seus poemas dão voz a uma mulher de honesto coração aberto a habitar uma ilha privada de emoções, completamente removida de grandes preocupações sociais. 
(págs. 301-302)

Embora Safo tenha tratado vividamente das múltiplas faces do sentimento erótico, portanto, seria um equívoco pensarmos que sua poesia não sai das fronteiras do amor: nos fragmentos que nos restam, o eu lírico sáfico se recorda, contempla, sofre, medita, louva, limita-se, anseia e demonstra claridade de linguagem, originalidade de imagens e intensidade de emoções como poucos poetas da antiguidade.
A seguir, traduzo, do irreverente inglês de Anne Carson (If Not, Winter, 2002) e do péssimo grego que sei, alguns versos sáficos que me são particularmente tocantes.


Fr. 24A

]ανάγα̣[
] . [ ]εμνάσεσθ᾿ ἀ[
κ]αὶ γὰρ ἄμμες ἐν νεό[τατι
ταῦ̣τ̣᾿ [ἐ]πόημμεν·
πό̣λ̣λ̣α̣ [μ]ὲν γὰρ καὶ κά[λα
. . . η̣ . [ ]μεν, πολι[
ἂμμε̣[ . ]ὀ[ξ]είαις δ̣[
. ] . . [ . ] . . [
]
]you will remember
]for we in our youth
did these things

yes many and beautiful things
]
]
]
]
]tu te recordarás
]pois em nossa juventude
nós fizemos coisas assim

sim coisas muitas e belas
]
]
]

*

Fr. 34

ἄστερες μὲν ἀμφὶ κάλαν σελάνναν
ἂψ ἀπυκρύπτοισι φάεννον εἶδος
ὄπποτα πλήθοισα μάλιστα λάμπη
γᾶν

ἀργυρία 
stars around the beautiful moon
hide back their luminous form
whenever all full she shines
on the earth

silvery 
estrelas ao redor da linda lua
escondem seu brilho
quando ela fulgura cheia
sobre a terra

prateada

*

Fr. 38

ὄπταις ἄμμε 
you burn me 
tu me queimas

*

Fr. 42

ταῖσι ψῦχρος μὲν ἔγεντ᾿ ὀ θῦμος,
πὰρ δ᾿ ἴεισι τὰ πτέρα
their heart grew cold
they let their wings down 
seu coração esfriou:
suas asas não mais voam

*

Fr. 50

ὀ μὲν γὰρ κάλος ὄσσον ἴδην πέλεται <κάλος>͵
ὀ δὲ κἄγαθος αὔτικα καὶ κάλος ἔσσεται.
For the man who is beautiful is beautiful to see 
but the good man will at once also beautiful be. 
O homem belo é belo de se olhar,
mas o bom será belo quando bom se revelar.

*

Fr. 52

ψαύην δ᾿ οὐ δοκίμωμ᾿ ὀράνω †δυσπαχέα†

I would not think to touch the sky with two arms 
Eu nunca pensaria em tocar no céu com os dois braços 

*

Frs. 74A, 74B, 74C

]ων ἔκα[
]αιπόλ[
]μ.[
]βροδο[
]ο̣νθ[
]φαιμ[

]α[
]ποθο̣[
].ώβα̣[

].[
]ας ἴδρω[
].υζ̣αδ.[
]ι̣ν[
] goatherd 
] roses 

] longing 

] sweat 
] pastor
] rosas

] anseio

] suor

Anne Carson (1950-), poeta, ensaísta e tradutora canadense

Drummond: Passagem do Ano

     Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) era um homem de temperamento reservado, discreto e meditativo – mas sabia compor versos que, enc...